Em busca da esperança perdida

Cá estou eu, revirando meus pensamentos como quem revira um quarto bagunçado, abrindo gavetas e portas em busca de algo que sei que já esteve aqui.

Diferentemente de quando perdemos um objeto, que desaparece de repente, a esperança se esvai aos poucos. E a busca por esse sentimento, muitas vezes, é contínua. Em outros casos, compreendemos que não há jeito e nos conformamos com a perda, aceitando as situações como elas são e deixando de acreditar em uma mudança.

No meu caso, o que vem se perdendo é a esperança de que a ignorância de parte da sociedade possa ser convertida em conhecimento. Acreditar que isso um dia nos levaria a uma realidade menos cruel e desigual tem se tornado uma batalha cada vez mais árdua.

Dias atrás, fui confrontado novamente com uma situação que me fez refletir sobre a tamanha escrotidão de que o ser humano é capaz.

Um amigo me chamou para ir a um bar no fim da noite. Aceitei o convite e segui até lá. Era um daqueles botecos típicos, onde as pessoas bebem, jogam conversa fora e discutem de tudo: política, futebol, mulheres e qualquer outro assunto que surja. Meu amigo, que me esperava, assim como eu, também é cego.

Ao desembarcar do Uber, chamei por ele e fui até sua mesa. No instante em que chegamos, o bar silenciou por alguns segundos. Não era surpresa. Em muitos lugares, ainda mais em cidades pequenas, as pessoas se espantam ao ver um cego em um bar ou restaurante. Mas logo as conversas voltaram ao normal.

Eu estava acompanhado da minha cadela-guia, uma labradora preta. E foi aí que surgiu Josué, um dos frequentadores do bar. Ele passava por nós repetidamente, soltando uma piada que parecia hilária para ele:

— Nossa, que belo cachorro branco! Que bonito o seu cachorro branco!

Como se nem eu nem meu amigo soubéssemos que minha cadela era preta. Uma piada sem sentido, sem graça, mas suficiente para arrancar risadas dele e dos seus parceiros. Ignoramos. Entendemos que se tratava de mais um sem-noção.

Mas então surgiu Simão, um personagem ainda mais curioso e completamente desprovido de bom senso. Movido pela curiosidade e pela falta de filtro, decidiu iniciar sua “entrevista”.

— Como você chegou até aqui?

— De Uber — respondi.

— Mas quem chamou o carro para você?

— Eu mesmo. Meu telefone tem um aplicativo que lê a tela e eu consigo usá-lo normalmente.

Tentei voltar à conversa com meu amigo, mas Simão não se deu por satisfeito.

— Mas como você paga o Uber? Dinheiro ou cartão de crédito?

Respirei fundo. Mesmo sentindo minha privacidade ser atropelada, respondi:

— Tanto faz. Às vezes pago em dinheiro, às vezes no cartão, às vezes no Pix.

Ele continuou:

— Mas quem cuida do seu dinheiro? Você mesmo?

Eu estava em um dia de paciência, algo raro ultimamente.

— Sim, cuido do meu dinheiro, recebo meu salário e sou um cidadão que ajuda a girar a economia deste país.

Simão parecia ter feito uma descoberta científica. Com o nível de chatice e inconveniência elevadíssimo, exclamou:

— Nossa, vocês são quase mais inteligentes do que nós! Que incrível! Nunca tinha falado com um cego antes!

E então, como se fosse o líder da gincana “Os Idiotas se Encontram”, lançou:

— Posso te fazer uma pergunta? Existe cego viado?

Respirei fundo duas ou três vezes, lembrando que o ambiente do boteco é um lugar onde devemos estar mais relaxados e tentar desconsiderar algumas bobagens, evitando os dissabores. Enquanto eu formulava uma resposta, Josué, no auge de sua comédia particular, repetia sua piada:

— Olha que lindo o cachorro branco!

Meu amigo decidiu responder por nós:

— Existe cego gay, cega lésbica, cego preto, branco, amarelo, ateu, judeu, evangélico, gremista, colorado, corintiano e são-paulino. Ser cego é apenas mais uma característica humana.

Alguém na mesa soltou:

— Nossa, mas como eles são inteligentes! Acho que é porque ouvem mais.

E Simão seguiu, sem perceber que já havia ultrapassado todos os limites:

— Já nasceu assim? É casado? Tem filho? Você não enxerga nada?

Ali estávamos, eu e meu amigo, tentando manter a paciência, explicando e respondendo perguntas que talvez, só talvez, pudessem fazer aquelas pessoas saírem um pouco menos ignorantes dali.

Foi quando recebi uma mensagem no celular. Enquanto mexia no aparelho, Simão cochichava com os amigos, espantado:

— Como pode ele mexer tão rápido? Parece até que usa melhor que a gente que enxerga!

Eu pensava: não parece. Eu uso.

Mas a mensagem que recebi foi a gota d’água. Um amigo bastante querido me escreveu:

“Meu querido, lamentável a situação. Quatro cegos pegaram um Uber e foram para um cabaré. O motorista filmou eles descendo do carro e entrando no puteiro, jogou no Instagram. Tentei ver se você era um dos cegos, mas fica tranquilo, não era você.”

Junto com a mensagem veio o link do vídeo e o famoso “kkkkk”.

Fiquei indignado. Primeiro, porque meu colega, ao ver o título do vídeo, imediatamente o associou a mim apenas por se tratar de pessoas cegas, sem avaliar o contexto. O vídeo foi gravado em um local no Nordeste, um lugar que não frequento. Segundo, porque quatro pessoas, que talvez eu nem conheça, tiveram sua imagem exposta sem autorização apenas por terem uma deficiência. Terceiro, porque percebi que, de forma indireta, a mesma invasão de privacidade que aquelas quatro pessoas sofreram na entrada do cabaré eu também estava sofrendo naquela mesa.

Para muitos, isso pode parecer apenas uma brincadeira. Mas é invasão de privacidade. É desrespeito. É reduzir a existência do outro a uma piada.

Sei que nem todas as pessoas invadem nossa privacidade ou têm esse tipo de comportamento, mas uma grande fatia da sociedade age dessa forma. Por exemplo, não é raro eu entrar em um carro de aplicativo e a primeira frase que ouvir seja:

— Você já nasceu assim?

— Deve ser difícil ser assim.

Difícil é precisar de paciência o tempo inteiro para responder a tantas perguntas idiotas. Difícil é ver nossa vida constantemente invadida.

Muitas vezes, respondo às perguntas ainda com esperança de transformar ignorância em conhecimento. Mas está cada vez mais difícil manter essa esperança viva.

Existem, sim, perguntas legítimas, movidas pela curiosidade genuína. Mas vamos combinar? Em muitos casos, é pura idiotice.

Tenho clareza de que muitos vão ler este texto e pensar: “É só ser mais seletivo. Escolha lugares melhores, não vá ao boteco, vá a um pub com um público mais seleto. Pegue um Uber Black e marque a opção de não falar com o motorista. Faça suas compras pelo aplicativo e evite ambientes onde há maior propensão de encontrar idiotas. Ah, e não vá ao puteiro.”

E, de fato, muitas vezes eu mesmo já tive esse pensamento. Mas, na realidade, acredito que idiotas estão presentes em todos os lugares. Apenas em alguns ambientes conseguem se conter mais.

O correto seria podermos estar em qualquer espaço sem ter nossa vida invadida.

Ninguém deveria ter sua privacidade desrespeitada, seja em um boteco, um pub, um templo religioso ou até mesmo em um puteiro.

E como acreditar em um mundo menos idiota, se ao nosso redor há tantos idiotas?

Francis Guimarães

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