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  • Cronometrando a Acessibilidade: Quanto Tempo Ainda Precisamos?

    Desde muito cedo, desenvolvi uma apreciação pelos relógios de pulso. Minha fascinação transcende a simples funcionalidade de checar as horas, estendendo-se ao apelo estético desses acessórios. Após perder minha visão, experimentei uma variedade de modelos, incluindo relógios digitais falantes com caixas metálicas arredondadas e versões em Braille similares. O grande problema que sempre percebi foi a durabilidade desses relógios, principalmente devido à falta de resistência à água. Além disso, as opções de modelos são escassas e não são encontrados em lojas convencionais.

    Embora hoje tenhamos a possibilidade de verificar as horas no smartphone, eu acho muito interessante o uso do relógio.

    Nos últimos anos, eu estava utilizando um Apple Watch, um relógio que considero bonito e de boa qualidade. É extremamente acessível, oferecendo diversas outras funções além de verificar a hora, mas infelizmente com um preço bastante elevado. Um dos pontos que eu gosto muito no Apple Watch é o fato de ser um relógio desenvolvido seguindo o desenho universal, permitindo que qualquer pessoa, com qualquer especificidade, utilize o equipamento.

    Mas tive um probleminha e meu Apple Watch estragou. Então, resolvi pesquisar por outros modelos de relógios, buscando algo mais barato e com um design mais arredondado.

    Primeiro fui procurar por relógios Braille ou falantes e percebi que não surgiu nada de muito diferente nos últimos 15 anos; os modelos são os mesmos, sem grandes novidades. Até encontrei um modelo de relógio digital com caixa de aço inox que fala em espanhol no site do AliExpress. Entretanto, o site é repleto de bugs de acessibilidade, o que tornou minha usabilidade terrível e impediu-me de finalizar a compra. Posteriormente, encontrei o mesmo relógio no site da Amazon, onde eu conseguiria realizar a compra com autonomia, pois o site é acessível. Porém, no AliExpress, com as taxas, eu pagaria R$200, enquanto na Amazon o relógio estava por R$500, ou seja, a falta de acessibilidade faria eu pagar muito mais pelo mesmo produto.

    Desisti de comprar o relógio Braille ou falante e resolvi pesquisar sobre os smartwatches e seus mais diversos modelos.

    Pesquisei inúmeros modelos de smartwatch em diversos sites, porém nenhum oferecia uma descrição detalhada do design dos relógios. Faltavam detalhes como a cor do relógio e da pulseira, a cor dos botões, quantos botões de cada lado, e se os botões são arredondados ou quadrados. Esse obstáculo me fez esbarrar mais uma vez na falta de acessibilidade digital, já que teria que adquirir um produto sem saber exatamente como era o modelo. Seria ótimo se os produtos incluíssem descrições das fotos, pois para mim é interessante conhecer as características dos produtos. Cheguei a solicitar ajuda do Be My Eyes para descrever alguns modelos, mas a falta de informações específicas me deixou insatisfeito. Embora as descrições sobre as funções e recursos dos produtos sejam extensas, elas raramente incluem informações sobre acessibilidade.

    Será que o Amazfit possui leitor de telas?

    E os smartwatches da Xiaomi, são bem acessíveis com o TalkBack?

    E o Samsung Galaxy Watch, qual modelo tem melhor interação com o TalkBack?

    Muitas perguntas, mas encontrei pouquíssimas respostas.

    Confesso que fiquei um pouco frustrado e sem paciência com minha pesquisa na internet. Por isso, decidi sair de casa e visitar lojas físicas, onde eu poderia ter uma experiência mais direta e tocar nos equipamentos para conhecer melhor os modelos.

    A primeira loja que visitei foi a Vivo, em um shopping na cidade. Lá, conheci o Samsung Galaxy Watch 4, um relógio lindo, redondo, com pulseira de borracha. Cheguei a cogitar migrar para Android para usar esse relógio, que achei deslumbrante. Porém, o vendedor informou que não poderia ativar a acessibilidade do aparelho, nem seria possível testar seu funcionamento. Importante destacar que esse era um aparelho de mostruário, ligado para que as pessoas pudessem testar sua funcionalidade, mas, para mim, esse direito foi negado, confrontando-me mais uma vez com a falta de acessibilidade, agora não mais apenas digital, mas também atitudinal.

    Depois, fui a outra loja, que vendia diversos produtos importados, como celulares e capas. Fui muito bem atendido e a vendedora, de antemão, informou que não teriam nenhum modelo de relógio com recurso de voz. Expliquei que sabia que os smartwatches da Samsung possuíam acessibilidade por meio do TalkBack. Ela me mostrou vários modelos, incluindo alguns bem pequenos que pareciam apenas uma pulseira, com um preço acessível e uma série de recursos, como mapeamento de batimentos cardíacos, mas nenhum desses relógios oferecia recursos de acessibilidade. Então, ela me mostrou um Galaxy Watch Active 2 seminovo. Ela ativou o TalkBack e me permitiu testar o aparelho. Fiquei feliz por poder testar o relógio, que era realmente bonito, porém lento, e eu não estava interessado em algo seminovo.

    Mas fiquei bastante impressionado com a quantidade de modelos e marcas de smartwatches disponíveis no mercado, uma pena que a grande maioria não ofereça acessibilidade. Isso obriga nós, pessoas cegas, a utilizarmos produtos mais caros, o que comprova que a vida de uma pessoa com deficiência é, sim, mais cara em comparação com a vida de uma pessoa sem deficiência.

    Continuei a saga em busca do relógio e, para facilitar minha vida, decidi adquirir novamente um Apple Watch. Realizei uma busca rápida em alguns sites e descobri uma loja próxima de minha casa que vende o Apple Watch mais barato do que no site oficial da Apple. Já familiarizado com o funcionamento do relógio e ciente da acessibilidade que o equipamento oferece, acreditei que a compra seria simples, sem barreiras.

    Ao chegar na loja, a vendedora ficou extremamente impressionada quando mencionei que queria comprar um Apple Watch SE da primeira geração. Após anunciar minha intenção de compra, ela ficou em silêncio por alguns instantes, como se eu tivesse anunciado um assalto. Ela gaguejou, soltou uma risadinha desconcertada e disse que iria pegar o relógio. Então eu complementei: “Vi no site de vocês que tem um modelo de 44 mm.” Neste momento, ela reagiu como se eu estivesse anunciando um sequestro. “Viu???” — ela perguntou, com um tom repleto de interrogações. Percebi que, mais uma vez, estava diante de uma barreira de acessibilidade atitudinal. “Sim, moça, eu vi com os ouvidos.” “E, por favor, traga o relógio para eu ‘ver’ com os dedos.” Quando ela trouxe o relógio, ainda na caixa, pedi para abrir e tocar o produto. Enquanto eu explorava o conteúdo, ela ia narrando: “Isto é o papel, isto é o relógio, isto é a pulseira.” Como se meu tato não pudesse discernir os itens na caixa. “Ok, moça, vou levar o relógio.” Perguntei se poderia ligar e configurar ali mesmo. A mulher parecia espantada, quase como se tivesse visto um extraterrestre, mas também curiosa para ver o que eu faria com o relógio. Ela se ofereceu para chamar um colega para me ajudar na configuração. “Não precisa, eu consigo fazer sozinho.” Fui pagar e ela me conduziu até o caixa. Para meu descontentamento, a máquina de pagamento era da Stone, com tela touchscreen e inacessível. Fui obrigado a dizer a senha do meu cartão para a vendedora digitar. Uma sensação desagradável, a falta de acessibilidade violando meu direito e invadindo minha privacidade. Cheguei a cogitar sair da loja para comprar em outro local, mas naquela altura, eu só queria ir para casa com meu relógio. Fomos até outro balcão para fazer a configuração. Eu queria ativar o Leitor de telas VoiceOver para ter certeza de que era um equipamento original. Com o relógio em mãos, liguei-o, ele vibrou, dei três toques na Digital Crown (botão redondo), ouvi a voz do VoiceOver, fiz movimentos na tela do rotor para aumentar o volume e a velocidade, e comecei a configuração. A tela do relógio exibia opções de configuração. Peguei o iPhone, escaneei a tela do relógio para parear, e o relógio perguntou sobre os medicamentos que utilizo, se sou destro ou canhoto, se uso cadeira de rodas. Foi um verdadeiro show de acessibilidade! Um pequeno equipamento que cabe na palma da minha mão, mas que, desde o primeiro instante em que é ligado, me proporciona uma usabilidade incrível. A forma como foi construído demonstra um cuidado com a experiência de todos os usuários e, ao usá-lo, sinto como se o próprio produto me dissesse: ‘Você é um consumidor como qualquer outro. Você importa. Nós o respeitamos e valorizamos.

    Mas o Apple Watch não apenas reforçava essa sensação de inclusão para mim; enquanto eu configurava o aparelho, acredito que também demonstrava para a vendedora, claramente surpresa, que o sujeito cego à sua frente possui capacidades, raciocínio, conhecimento e potencialidades que ela desconhece.

    Eu, que estou sempre refletindo e pensando em estratégias para promover a acessibilidade, quando peguei o relógio na mão e cliquei três vezes na Digital Crown, viajei na imaginação por uns instantes: como seria interessante se eu pudesse dar três toques na cabeça da vendedora e torná-la uma pessoa que compreendesse melhor a diversidade humana.

    Essa situação reforça meu pensamento de que, embora tenhamos evoluído significativamente nos avanços digitais, ainda temos um longo caminho a percorrer para garantir a acessibilidade em todos os espaços. Parece que estamos praticamente estagnados quando pensamos em acessibilidade como parte da cultura. Chego a essa conclusão não apenas pelo fato de a vendedora ser completamente desprovida de noção, mas também por causa de sites que não são acessíveis, máquinas de cartões touchscreen sem recursos de acessibilidade, e marcas que desenvolvem smartwatches sem seguir o design universal. Esses exemplos são produtos de mentalidades tão desinformadas quanto a da vendedora da loja.

    Sei que a acessibilidade é uma construção contínua, que requer tempo para tornar todos os espaços acessíveis, mas é importante que todos nós ativemos nossos cronômetros e pensemos em estratégias para garantir maior acessibilidade a todos.

    Francis Guimarães

     

  • Em busca da esperança perdida

    Cá estou eu, revirando meus pensamentos como quem revira um quarto bagunçado, abrindo gavetas e portas em busca de algo que sei que já esteve aqui.

    Diferentemente de quando perdemos um objeto, que desaparece de repente, a esperança se esvai aos poucos. E a busca por esse sentimento, muitas vezes, é contínua. Em outros casos, compreendemos que não há jeito e nos conformamos com a perda, aceitando as situações como elas são e deixando de acreditar em uma mudança.

    No meu caso, o que vem se perdendo é a esperança de que a ignorância de parte da sociedade possa ser convertida em conhecimento. Acreditar que isso um dia nos levaria a uma realidade menos cruel e desigual tem se tornado uma batalha cada vez mais árdua.

    Dias atrás, fui confrontado novamente com uma situação que me fez refletir sobre a tamanha escrotidão de que o ser humano é capaz.

    Um amigo me chamou para ir a um bar no fim da noite. Aceitei o convite e segui até lá. Era um daqueles botecos típicos, onde as pessoas bebem, jogam conversa fora e discutem de tudo: política, futebol, mulheres e qualquer outro assunto que surja. Meu amigo, que me esperava, assim como eu, também é cego.

    Ao desembarcar do Uber, chamei por ele e fui até sua mesa. No instante em que chegamos, o bar silenciou por alguns segundos. Não era surpresa. Em muitos lugares, ainda mais em cidades pequenas, as pessoas se espantam ao ver um cego em um bar ou restaurante. Mas logo as conversas voltaram ao normal.

    Eu estava acompanhado da minha cadela-guia, uma labradora preta. E foi aí que surgiu Josué, um dos frequentadores do bar. Ele passava por nós repetidamente, soltando uma piada que parecia hilária para ele:

    — Nossa, que belo cachorro branco! Que bonito o seu cachorro branco!

    Como se nem eu nem meu amigo soubéssemos que minha cadela era preta. Uma piada sem sentido, sem graça, mas suficiente para arrancar risadas dele e dos seus parceiros. Ignoramos. Entendemos que se tratava de mais um sem-noção.

    Mas então surgiu Simão, um personagem ainda mais curioso e completamente desprovido de bom senso. Movido pela curiosidade e pela falta de filtro, decidiu iniciar sua “entrevista”.

    — Como você chegou até aqui?

    — De Uber — respondi.

    — Mas quem chamou o carro para você?

    — Eu mesmo. Meu telefone tem um aplicativo que lê a tela e eu consigo usá-lo normalmente.

    Tentei voltar à conversa com meu amigo, mas Simão não se deu por satisfeito.

    — Mas como você paga o Uber? Dinheiro ou cartão de crédito?

    Respirei fundo. Mesmo sentindo minha privacidade ser atropelada, respondi:

    — Tanto faz. Às vezes pago em dinheiro, às vezes no cartão, às vezes no Pix.

    Ele continuou:

    — Mas quem cuida do seu dinheiro? Você mesmo?

    Eu estava em um dia de paciência, algo raro ultimamente.

    — Sim, cuido do meu dinheiro, recebo meu salário e sou um cidadão que ajuda a girar a economia deste país.

    Simão parecia ter feito uma descoberta científica. Com o nível de chatice e inconveniência elevadíssimo, exclamou:

    — Nossa, vocês são quase mais inteligentes do que nós! Que incrível! Nunca tinha falado com um cego antes!

    E então, como se fosse o líder da gincana “Os Idiotas se Encontram”, lançou:

    — Posso te fazer uma pergunta? Existe cego viado?

    Respirei fundo duas ou três vezes, lembrando que o ambiente do boteco é um lugar onde devemos estar mais relaxados e tentar desconsiderar algumas bobagens, evitando os dissabores. Enquanto eu formulava uma resposta, Josué, no auge de sua comédia particular, repetia sua piada:

    — Olha que lindo o cachorro branco!

    Meu amigo decidiu responder por nós:

    — Existe cego gay, cega lésbica, cego preto, branco, amarelo, ateu, judeu, evangélico, gremista, colorado, corintiano e são-paulino. Ser cego é apenas mais uma característica humana.

    Alguém na mesa soltou:

    — Nossa, mas como eles são inteligentes! Acho que é porque ouvem mais.

    E Simão seguiu, sem perceber que já havia ultrapassado todos os limites:

    — Já nasceu assim? É casado? Tem filho? Você não enxerga nada?

    Ali estávamos, eu e meu amigo, tentando manter a paciência, explicando e respondendo perguntas que talvez, só talvez, pudessem fazer aquelas pessoas saírem um pouco menos ignorantes dali.

    Foi quando recebi uma mensagem no celular. Enquanto mexia no aparelho, Simão cochichava com os amigos, espantado:

    — Como pode ele mexer tão rápido? Parece até que usa melhor que a gente que enxerga!

    Eu pensava: não parece. Eu uso.

    Mas a mensagem que recebi foi a gota d’água. Um amigo bastante querido me escreveu:

    “Meu querido, lamentável a situação. Quatro cegos pegaram um Uber e foram para um cabaré. O motorista filmou eles descendo do carro e entrando no puteiro, jogou no Instagram. Tentei ver se você era um dos cegos, mas fica tranquilo, não era você.”

    Junto com a mensagem veio o link do vídeo e o famoso “kkkkk”.

    Fiquei indignado. Primeiro, porque meu colega, ao ver o título do vídeo, imediatamente o associou a mim apenas por se tratar de pessoas cegas, sem avaliar o contexto. O vídeo foi gravado em um local no Nordeste, um lugar que não frequento. Segundo, porque quatro pessoas, que talvez eu nem conheça, tiveram sua imagem exposta sem autorização apenas por terem uma deficiência. Terceiro, porque percebi que, de forma indireta, a mesma invasão de privacidade que aquelas quatro pessoas sofreram na entrada do cabaré eu também estava sofrendo naquela mesa.

    Para muitos, isso pode parecer apenas uma brincadeira. Mas é invasão de privacidade. É desrespeito. É reduzir a existência do outro a uma piada.

    Sei que nem todas as pessoas invadem nossa privacidade ou têm esse tipo de comportamento, mas uma grande fatia da sociedade age dessa forma. Por exemplo, não é raro eu entrar em um carro de aplicativo e a primeira frase que ouvir seja:

    — Você já nasceu assim?

    — Deve ser difícil ser assim.

    Difícil é precisar de paciência o tempo inteiro para responder a tantas perguntas idiotas. Difícil é ver nossa vida constantemente invadida.

    Muitas vezes, respondo às perguntas ainda com esperança de transformar ignorância em conhecimento. Mas está cada vez mais difícil manter essa esperança viva.

    Existem, sim, perguntas legítimas, movidas pela curiosidade genuína. Mas vamos combinar? Em muitos casos, é pura idiotice.

    Tenho clareza de que muitos vão ler este texto e pensar: “É só ser mais seletivo. Escolha lugares melhores, não vá ao boteco, vá a um pub com um público mais seleto. Pegue um Uber Black e marque a opção de não falar com o motorista. Faça suas compras pelo aplicativo e evite ambientes onde há maior propensão de encontrar idiotas. Ah, e não vá ao puteiro.”

    E, de fato, muitas vezes eu mesmo já tive esse pensamento. Mas, na realidade, acredito que idiotas estão presentes em todos os lugares. Apenas em alguns ambientes conseguem se conter mais.

    O correto seria podermos estar em qualquer espaço sem ter nossa vida invadida.

    Ninguém deveria ter sua privacidade desrespeitada, seja em um boteco, um pub, um templo religioso ou até mesmo em um puteiro.

    E como acreditar em um mundo menos idiota, se ao nosso redor há tantos idiotas?

    Francis Guimarães

  • Seu restaurante favorito é acessível?

    Já parou pra pensar se aquele restaurante “acessível” que você adora é mesmo acessível… pra todo mundo?

    Dica: na próxima vez, peça ao garçom uma dose de realidade sem gelo. Vai bem com qualquer prato e abre o apetite pra reflexão.

     

    Desde que me conheço por gente, percebo o quanto a sociedade, em linhas gerais, precisa evoluir em tantos aspectos. É claro que temos passado por diversas transformações que nos impulsionam nessa evolução.

    Se pararmos para refletir, em um curto espaço de tempo, pegando como exemplo os últimos 30 anos, muitas coisas se transformaram. Propagandas que estimulavam o uso de cigarros não existem mais. Estudos comprovam que os jovens de hoje consomem menos tabaco do que os de antigamente. O consumo de cigarro foi proibido em diversos locais. Imagine: fumava-se até dentro de aviões.

    As propagandas de balas, pirulitos e chicletes também desapareceram, diminuindo o incentivo ao consumo de produtos ricos em açúcar por crianças. Programas que alimentavam o preconceito racial e a homofobia foram saindo do ar aos poucos. Quem aí com mais de 30 anos se lembra do programa “Casseta e Planeta”, exibido à noite na Rede Globo? Um verdadeiro show de piadas que debochavam das diversidades humanas.

    Já sei: com certeza alguém lendo esse texto vai gritar — “ah, o mundo era muito mais legal”, ou “agora está tudo chato, o politicamente correto é um saco”.

    Frases como essas são comuns. Dizem que o politicamente correto limita a liberdade de expressão e do humor. Eu, enquanto pessoa cega, penso que não se trata de politicamente correto ou não. Muitas vezes, sim, esse conceito pode soar forçado. Mas precisamos falar sobre mudança de comportamento e cultura social.

    O politicamente correto se torna um problema, na minha visão, quando as pessoas deixam de interagir por medo de errar, por exemplo, por não saberem uma nomenclatura correta. Ou quando associam determinadas práticas ao politicamente correto e acham que devem aplicá-las em todas as situações. Talvez esse radicalismo roube a naturalidade das relações.

    Gosto bastante de refletir sobre essas mudanças sociais, principalmente para pensar na realidade de nós, pessoas com deficiência. E fica muito claro pra mim que nossa evolução é lenta. Passos de tartaruga. Ainda precisamos caminhar muito para transformar a cultura em relação a nós.

    Nos últimos tempos, tenho me debruçado no estudo sobre acessibilidade, sempre guiado pelo conceito de desenho universal, que deveria ser aplicado não apenas no digital, mas também nas atitudes e nos espaços físicos.

    Às vezes achamos que estamos olhando para o todo, mas estamos apenas focando na nossa realidade. O desafio é romper as bolhas e enxergar as outras vivências que também merecem atenção.

    Semana passada, embora tenha sido mais curta por causa da Semana Santa, foi intensa. Trabalhei a semana inteira falando sobre acessibilidade, pensando no desenho universal. Em um dos dias, fiz uma fala para um grupo de pessoas com o objetivo de romper com o desconhecimento sobre deficiência e aproximá-las da acessibilidade e da inclusão.

    Expliquei conceitos, disse que todos somos seres humanos com especificidades diferentes. Em certo momento, falei da minha filha, ainda tão pequena, com apenas quatro anos, mas que entende a deficiência como algo natural. Afinal, convive comigo, com a mãe dela, com amigos cegos. Para ela, é natural ver a gente cozinhando, andando pela rua, trabalhando.

    Falei da forma leve como a criança lida com as diferenças. E então, no fim da semana, minha mãe veio nos visitar para o feriado de Páscoa. Decidimos sair para jantar e tomar uma cerveja.

    Eu, que nos últimos tempos venho sofrendo com a fadiga de acesso por morar no interior, resolvi não arriscar um local novo, para evitar os dissabores. Escolhi um restaurante conhecido, mega acessível, onde sempre fui bem tratado. Nunca fui barrado com meu cão-guia. Os garçons, o gerente, a moça do caixa, todos me atendem com o respeito que qualquer cliente merece. A máquina de cartão tem teclado físico, posso digitar a senha com autonomia. Até tenho uma mesa preferida: à esquerda do corredor que leva ao banheiro, o que facilita meu deslocamento sozinho.

    Durante o jantar, minha filha perguntou para a avó:

    — Vovó, por que aquele homem está numa cadeira com rodas? É um carrinho?

    Minha mãe explicou que ele era uma pessoa com deficiência física, que usava a cadeira para se locomover. Mas minha filha continuou olhando, curiosa. Então minha mãe complementou:

    — Aninha, não se deve ficar olhando assim para as pessoas. Isso é normal. Ele é uma pessoa com deficiência, como o seu pai, só que com uma deficiência diferente. Às vezes as pessoas também ficam olhando para o papai, e esses olhares podem incomodar.

    Pronto. Aninha entendeu, parou de olhar.

    Mas aquilo me fez pensar. Assim como o queijo da pizza derretia no prato, derretia também minha convicção de que minha filha agia com naturalidade com pessoas com deficiência. Na verdade, ela age com naturalidade com pessoas cegas, as que fazem parte da convivência dela.

    Ao mesmo tempo, me alegrou ver a forma como minha mãe explicou a situação. Nem todo adulto tem essa sensibilidade de apresentar a deficiência como algo natural para uma criança. Claro que eu explicaria, caso minha mãe não o fizesse.

    Seguimos com a noite, e eu, feliz por estar em um lugar acessível, aconchegante. Atendimento excelente, respeito ao meu cão-guia, cuidado em avisar quando o copo é servido, apoio para ir ao buffet, deslocamento tranquilo até o banheiro. Lugar nota mil.

    Até que, já no fim do jantar, ouvi alguém dizer:

    — Ah, que saco! Não vai dar! Não vai passar!

    Minha mãe comentou com alguém próximo:

    — É complicado quando falta acessibilidade.

    Depois me contou a cena: o homem cadeirante queria ir ao banheiro, mas a cadeira dele não passava pela porta. Ele foi embora.

    Aquilo me atingiu como uma pancada. O garçom chamado Semancol, trazendo uma dose de amarga realidade sem gelo. Logo fui ao banheiro, o qual eu já havia ido tantas vezes em outras ocasiões, mas só naquele dia percebi que, de fato, o espaço era um labirinto. Porta estreita, corredor que vira à esquerda, depois à direita, depois outra porta estreita. Um banheiro minúsculo.

    Deslocamento e acesso até o banheiro que nunca foi um problema pra mim. Mas ali entendi claramente que não é acessível para todos.

    Fui pagar a conta e reparei que o balcão é bem alto. Sempre pago ali, até brinco batucando um sambinha no baleiro que fica em cima do balcão. Mas pensei: uma pessoa com nanismo ou que usa cadeira de rodas teria dificuldade para alcançar.

    Na saída, lembrei dos dois degraus da porta principal. Eu subo e desço com naturalidade. Mas outras pessoas não. Elas precisam entrar por uma porta lateral, e não entram pela porta da frente.

    Tudo isso me fez mudar minha avaliação no Google. Um restaurante que eu julgava acessível, na verdade, não é.
    Eu não percebia porque a barreira não me atinge diretamente. Mas ela atinge outras pessoas com deficiência. E fere completamente o conceito de desenho universal.

    Essa experiência me fez refletir sobre o quanto ainda é difícil pensarmos em acessibilidade para todos. Mesmo eu, pessoa cega, que trabalha com acessibilidade, frequento o lugar há quase um ano e nunca tinha percebido esses pontos.

    O que esperar do restante da sociedade?

    Precisamos mudar. Construir novos hábitos. Não aceitar espaços, sistemas, ambientes que não sejam acessíveis para todos.

    A sociedade já mudou em alguns aspectos. Hoje é menos racista, menos homofóbica, consome menos cigarro, tem menos incentivo ao açúcar, e o “Casseta e Planeta” não está mais no ar.

    Mas e nós, pessoas com deficiência? Quando será nossa grande transformação cultural?

    Alguns acham que falta de acessibilidade arquitetônica não tem relação com cultura. Mas tem tudo a ver. As pessoas que estavam ali fingiram não ver. O dono do restaurante não pensou em clientes com deficiência. Isso é cultura. Isso é ausência de cultura da acessibilidade.

    Se no passado alguém dissesse que seria proibido fumar em restaurantes, ônibus e prédios, muitos achariam um absurdo. Se falássemos que piadas homofóbicas deixariam de ser aceitas, também pareceria estranho. Mas essas mudanças aconteceram.

    Então, o que falta para que a mudança tão urgente em relação a nós aconteça?

    Finalizo reconhecendo e agradecendo a luta de tantas pessoas incansáveis, que batalham para garantir e manter nossos direitos. Mas a realidade é que ainda caminhamos a passos lentos.

    Francis Guimarães

  • A frieira e o capacitismo

    Você já teve frieira?

    Não?

    Mas tenho certeza de que já ouviu falar. É algo muito comum, que grande parte das pessoas tem ou já teve em algum momento da vida. Algo simples de tratar, uma espécie de fungo ou micose que normalmente aparece entre os dedos dos pés, principalmente quando não os secamos bem após o banho. É algo simples e de fácil tratamento, mas que, quando não tratado, pode incomodar bastante. No meu caso, a frieira entre o dedo mínimo e o anular inflamou e estava trazendo um desconforto muito grande.

    Incrível, cegos também têm frieira!

    Depois de um longo dia de trabalho, com muita dor no pé por causa da minha frieira não tratada, resolvi ir ao pronto atendimento. Dizem que não é recomendado se automedicar, então vamos consultar um médico.

    Desembarco do Uber, desdobro meu bengalão e vou caminhando em direção à porta de entrada. Observo as pessoas que estão à volta. Várias delas param de falar e cochicham a meu respeito:

    — Olha que interessante, um cego!

    — Será que ele quer consultar?

    — Será que ele quer ir ao balcão?

    E, nesse “será que será”, uma mão toca o meu ombro e, sem dizer nada, me carrega até um balcão, como se carregasse uma mala ou um saco de batatas. Não falo nada, pois não estou com disposição para explicar que essa maneira de conduzir uma pessoa cega está errada.

    No balcão de atendimento, a recepcionista preenche meus dados e me encaminha para a triagem. Lá estou eu, sentado, ouvindo os pacientes anteriores serem chamados, até que a enfermeira responsável chama:

    — Wesley!

    E o bendito Wesley não apareceu.

    Mais uma vez e mais alto ela o chama:

    — Wesley!

    Agora, ainda mais alto e mais perto de mim, ela novamente chama:

    — Wesley! Wesley! Wesley!

    Nesse momento, já havia compreendido que ela pensava que eu pudesse ser o paciente Wesley. Então, a enfermeira, que imaginou que eu fosse surdo ou estivesse dormindo, perguntou em alto tom de voz:

    — VOCÊ É WESLEY?

    — Prazer, Francis Guimarães. Se eu me chamasse Wesley, estaria de pé.

    Com o desaparecimento do paciente Wesley, a enfermeira resolveu me passar na frente.

    Ao entrar na sala, ela disse:

    — Vou te colocar sentadinho aqui nessa cadeirinha. Vou verificar sua pressão. Você consegue tirar o casaquinho?

    — Muito bem! Agora vou medir sua pressão. Vai apertar só um pouquinho seu bracinho.

    Logo depois, a mesma enfermeira me levou até o corredor de espera, onde eu aguardaria um dos médicos para o atendimento. Ela me colocou sentado em outra cadeirinha e disse:

    — Não saia daqui.

    Falou naquele tom de voz como quem fala com uma criança de seis ou sete anos.

    Depois de alguns minutos, a médica chama:

    — Francis Guimarães.

    Monto meu bengalão e me dirijo até a sala. Ela chama novamente, encontro a porta e entro.

    — Boa noite, doutora.

    Após alguns segundos de silêncio, a médica pergunta:

    — Francis Guimarães?

    — Sim, eu mesmo. Boa noite, doutora.

    — Hum… Boa noite. Você está sozinho?

    — A senhora está vendo alguém comigo?

    — Como você chegou aqui?

    — Caminhando. E a senhora?

    A médica, confusa e um tanto quanto incomodada, muda o assunto e pergunta:

    — O que você tem?

    — Acredito ser frieira, uma espécie de ferida entre os dedos. Tem me incomodado bastante. Dói e meu pé está um pouco inchado.

    Ela examinou rapidamente e perguntou:

    — Desde quando é diabético?

    — Eu, diabético? Nossa, nem sabia. A senhora que está dizendo.

    — Por que não enxerga?

    — Distrofia de cones e bastonetes, doença degenerativa da retina.

    — Pensei que fosse diabetes.

    Nesse momento, eu, já com pouca paciência e louco para chegar em casa, respondi:

    — Na verdade, a senhora estava curiosa para saber o motivo da minha cegueira, então jogou um verde para colher maduro. Inúmeras doenças levam à cegueira, não apenas o diabetes.

    Novamente, alguns instantes de silêncio.

    — Vou encaminhá-lo para um dermatologista e lhe passar uma pomada anti-inflamatória. Serão dois papéis. Como você vai guardá-los?

    — No bolso da calça.

    — Mas como vai saber qual é qual?

    — Vou dobrá-los de maneira diferente e colocá-los em ordem. Assim consigo me organizar.

    — Genial! Vocês são demais! Que lindo! Recomendo que coloque seus calçados todos os dias no sol e que não utilize o mesmo sapato por três dias. Quem cuida da sua roupa?

    — Eu mesmo cuido da minha roupa. Por quê?

    — Nossa, que coisa. Mas daí complica saber se você não saiu com o mesmo calçado do dia anterior.

    — Só se eu fosse uma besta completa para não saber diferenciar meus sapatos. Doutora, como meu pé está doendo bastante, será que seria possível a senhora emitir um atestado?

    — Você trabalha?

    — Sim, trabalho. Se não trabalhar, não pago o plano de saúde.

    — Você trabalha longe?

    — Olha, doutora, longe depende de onde. Da minha casa eu levo uma hora e meia até o trabalho.

    — Nossa, quem te leva?

    — O trem e o ônibus. Eles me levam e me trazem.

    Nesse momento, um silêncio profundo tomou conta do consultório. Ela não tinha palavras e eu não tinha paciência nem vontade de explicar nada. Só queria o encontro mágico com minha cama.

    Peguei meus papéis, chamei meu Uber e parti.

    No outro dia, acordei com o pé mais inchado e com mais dor do que no dia anterior. Aparentemente, a pomada não resolveu o problema. Liguei para o plano de saúde e marquei um clínico geral. Nessa ocasião fui acompanhado do meu cão-guia, porque era dia e eu teria que caminhar até o consultório.

    Chegando ao local da consulta, no primeiro momento o médico disse que não poderia aceitar minha entrada no consultório com o cão-guia. Expliquei que era Lei Federal e que ele não poderia negar minha entrada.

    A recepcionista explicou a situação e, por fim, cumprindo a lei, ele permitiu minha entrada.

    — Boa tarde, doutor.

    — Boa tarde. Estou impressionado. É a primeira vez que atendo um cachorro.

    — Hum… mas eu sou um ser humano. Se o senhor olhar bem para mim e prestar atenção nos detalhes, vai perceber isso.

    — Desculpe. É que realmente é algo incrível. Tenho 70 anos e nunca imaginei ter um cão no meu consultório.

    Com muita paciência e bastante dor no pé, expliquei um pouco sobre o treinamento dos cães-guia, o comportamento que eles precisam ter, a legislação e a importância que têm em nossas vidas. Mesmo em um momento de profundo desconforto, penso que devemos ser agentes de informação e contribuir para melhorar o mundo.

    — Doutor, vim até aqui porque estou com muita dor no meu pé. Estive ontem na emergência e a médica passou uma pomada para frieira, mas a dor está mais forte.

    O médico ouviu e perguntou:

    — Por que você é cego?

    — Distrofia de cones, doença degenerativa da retina.

    — Faz tempo que não enxerga?

    — Sim, faz.

    — Você trabalha?

    — Sim, trabalho.

    — Trabalha com o quê?

    — Sou professor de informática.

    — Mas como? Deve ser difícil ser professor nessa condição!

    — Sim, é uma merda mesmo. O senhor nem imagina. Dar aula com essa dor no pé ninguém aguenta. Pior que isso é procurar um médico para tentar resolver o problema e ter que dar uma entrevista. Façamos o seguinte, doutor: eu respondo todas as suas dúvidas, mas depois, quem sabe, o senhor olha o meu pé, que está doendo? Ontem, na emergência, sua colega médica, também cheia de curiosidades, me fez uma entrevista parecida com a sua, mas mal olhou meu pé. Acho que o senhor poderia esclarecer suas dúvidas em outro momento, porque preciso que tenha o mínimo de foco no meu pé.

    O médico, percebendo minha irritação, resolveu examinar meu pé. Vestiu as luvas, examinou entre meus dedos, apalpou bem o pé, perguntou onde doía. Voltou até sua cadeira e disse:

    — O que você tem é erisipela, um processo infeccioso da pele. Realmente seu pé está inchado e febril. Deve iniciar o antibiótico logo. Vou lhe receitar o medicamento. Peço desculpas pela minha colega de ontem e também pelo meu excesso de perguntas. É que não é comum ver pessoas cegas, ainda mais sozinhas. Tenho 70 anos e nunca havia atendido uma pessoa cega.

    — Compreendo, doutor. Não me importo de responder aos questionamentos e esclarecer dúvidas, mas causa um incômodo bastante grande as pessoas perceberem apenas minha deficiência, sem conseguir compreender que ela é apenas uma das muitas características que tenho. Principalmente quando isso vem de quem deveria ter preparo para lidar com a diversidade.

    A consulta se encerrou e, mais uma vez, fiquei refletindo sobre esses fatos que ocorrem com frequência com pessoas cegas que vivem com autonomia e independência.

    É lastimável perceber que grande parte da sociedade é extremamente ignorante quando o assunto somos nós, pessoas com deficiência.

    Frieira é uma merda. Incomoda muito. Porém, a desinformação e a ignorância incomodam muito mais.

    Erisipela dói pra caramba. Porém, o capacitismo, o preconceito e a discriminação ferem e doem muito mais.

    Para frieira temos pomadas. Para erisipela, antibióticos.

    O que temos para a desinformação, o preconceito e o capacitismo?

    Como curar a sociedade desse mal que parece incurável?

    Às vezes me sinto chato, ranzinza, mal-humorado e impaciente. Penso que deveria buscar mais calma e paciência para enfrentar os dissabores do dia a dia. Alguns amigos aconselham a não levar tudo para o coração. Outros dizem que a vida da pessoa cega é assim mesmo, que é preciso aceitar e seguir em frente. Mas existe algo dentro de mim que considera inadmissível aceitar viver em uma sociedade tão problemática. Sinto a necessidade de contribuir para mudar essa realidade.

    Essa semana, enquanto eu ouvia a novela Pantanal, das 21 horas, passou uma cena que me fez refletir sobre a importância da visibilidade e sobre como outros grupos minoritários conseguem ocupar espaços na mídia, contribuindo para educar a sociedade.

    Em um diálogo entre o personagem Zaqueu, interpretado por Silvério Pereira, e Alcides, interpretado por Juliano Cazarré, Zaqueu, que é homossexual, explica para Alcides, um peão ignorante, o que é ser gay e o orgulho que tem de ser quem é:

    “— Para seu governo, Alcides, nós também amamos.

    — Ah, então você está admitindo aí que você é?

    — Homossexual, das letrinhas LGBTQIA+, e o G aqui não é de gado não, é de gay, de gente.

    — E o que quer dizer isso?

    — Quer dizer que eu sinto atração por gente do mesmo sexo.

    — Aí você fala isso assim com a maior naturalidade?

    — Ter atração por alguém do mesmo sexo é tão natural quanto você ter atração pelo sexo oposto!

    — É que você fala as coisas de um jeito… parece até que você tem orgulho.

    — Eu tenho orgulho, Alcides. Não é pouco, não. Tenho muito orgulho de ser quem eu sou, de tudo que enfrentei para conseguir chegar até aqui, de tudo que todos que vieram antes de mim tiveram que enfrentar para que eu não me sentisse diminuído por ser quem eu sou. Gostar de quem eu gosto. Aprendeu?

    — Aprendi.”

    Esse diálogo me emocionou. Acredito que representa a voz de milhares de pessoas LGBTQIA+ e que, para elas, essa cena colabora muito na construção de uma sociedade menos intolerante e preconceituosa.

    Ao mesmo tempo, fiquei refletindo sobre a visibilidade das pessoas com deficiência. Em que momento teremos uma participação em horário nobre da televisão brasileira abordando nossas causas? Imaginem um artista com deficiência interpretando um personagem com deficiência e dizendo ter orgulho de ser quem é, orgulho de todos que lutaram antes por nossos direitos. E, ao final, perguntando ao outro personagem:

    — Aprendeu?

    Na verdade, essa pergunta final é direcionada à sociedade. O que muitos chamam de lacração é, na verdade, uma forma de conscientizar as pessoas e construir um mundo mais inclusivo.

    Tenho clareza de que nós, pessoas com deficiência, já conquistamos grandes avanços. Porém, ainda temos um longo caminho a percorrer para chegarmos perto de uma sociedade minimamente inclusiva.

    Por que o movimento das pessoas com deficiência quase nunca utiliza o termo orgulho? Ao menos eu nunca ouvi esse termo ser utilizado.

    Parte da sociedade ainda associa deficiência à doença, algo que pode ser curado pelo avanço da medicina ou por um milagre divino. Outra parte acredita que precisamos ser infantilizados, que somos seres assexuados e que nascemos para ser superprotegidos, cuidados e tutelados. Entre essas pessoas, muitas vezes estão familiares e profissionais que trabalham com educação, habilitação e reabilitação. E, infelizmente, em alguns casos, essa também é a visão que algumas pessoas com deficiência têm de si mesmas.

    Tenho a convicção de que precisamos ter orgulho de quem somos e do que conseguimos conquistar. Driblando milhares de barreiras culturais, arquitetônicas e atitudinais, seguimos em frente, diariamente enfrentando o preconceito, a discriminação e o capacitismo extremo presentes em diversos espaços da nossa sociedade.

    No mundo do trabalho, na educação básica, na universidade, nos espaços culturais e sociais, lá estão as barreiras. E lá estamos nós para rompê-las e mostrar nossas capacidades.

    Tenho orgulho, sim. Muito orgulho de ler com a ponta dos dedos o sistema mais lindo de leitura e escrita, criado por um jovem estudante cego: Louis Braille.

    Tenho orgulho de caminhar com minha bengala pelas cidades do meu país e conseguir vencer a gigantesca falta de acessibilidade.

    Tenho imenso orgulho de ver diversos amigos com deficiência, nas mais variadas áreas do serviço público e privado, mostrando que é possível vencer as barreiras impostas pela sociedade.

    Quando fui impedido de entrar no museu em Ouro Preto, fiquei extremamente revoltado, mas senti orgulho de não desistir e entrar mesmo contra a vontade de quem administrava aquele local, provando que sou um cidadão como qualquer outro e que meu direito deve ser respeitado.

    Tenho orgulho de fazer a Lei do Cão-Guia ser respeitada e, dessa forma, entrar em diversos ambientes.

    Tenho orgulho de todos nós que conseguimos nos formar, mesmo estudando em universidades muitas vezes despreparadas.

    Quando assisto à televisão aberta ou aos streamings e encontro conteúdos com audiodescrição, fico contente e sinto orgulho de quem lutou para tornar isso realidade.

    Quando chego à farmácia e leio a caixa de remédio em Braille, também lembro que é uma conquista nossa.

    Acredito que precisamos ter maior visibilidade. A sociedade precisa nos perceber de outra forma. Devemos estar presentes em todos os espaços. E precisamos vestir a camisa da nossa causa e nos orgulhar disso.

    É preciso plantar essa semente e regá-la diariamente para que, quem sabe, daqui a cinquenta ou cem anos, outras pessoas com deficiência possam colher esses frutos.

    E, quem sabe, as suas frieiras ou erisipelas não sejam mais tão desconfortáveis.

    Francis Guimarães

    Orgulho de ser uma pessoa cega e superar as barreiras impostas pela sociedade.

    Porto Alegre, 29 de agosto de 2022.

  • A sinfonia da vida

    Se alguém, neste momento, me perguntasse o que é a vida, eu pediria um tempo para amadurecer meus conceitos, viver mais e, quem sabe, compreender o que ela realmente é.

    Porém, neste instante, responderia de forma simples.

    Imagino a vida como uma canção desconhecida, uma melodia que nunca ouvimos e cuja duração não sabemos. Quando ela começa a tocar, encantamo-nos com o som dos instrumentos, das vozes e com as mudanças de ritmo e intensidade. Ela traz acordes maiores, que transmitem alegria, mas também notas menores e dissonantes, capazes de despertar melancolia, tristeza, emoções e boas lembranças.

    Essa canção é única e não queremos que ela termine. Alguns instrumentos se despedem enquanto outros chegam. Uns trazem sons alegres e harmoniosos; outros, desafinados e com timbres difíceis de suportar.

    Em certos momentos, a harmonia se desorganiza, mas é corrigida por um grande diapasão, que, aos poucos, vai afinando os instrumentos. O ritmo também entra em conflito e a canção se torna exaustiva. Então entra em cena o metrônomo, mostrando pacientemente a cada instrumento o compasso que deve seguir.

    Aqueles que vivem essa música se alegram com a orquestra e se realizam com a chegada de novos sons, acordes e instrumentos. A tristeza também se faz presente quando sons queridos se silenciam para sempre, deixando um vazio permanente na canção.

    A grande dúvida é como essa música terminará. Será um final suave? Um término abrupto? Um ritmo de samba ou um rock pesado? Será que a canção realmente chega ao fim?

    Acredito que a música não termina no último acorde. O silêncio que surge talvez seja apenas uma pausa para que a canção continue em uma nova faixa. Gosto de acreditar que, um dia, todos os instrumentos voltarão a se encontrar e, em perfeita harmonia, conseguirão compor novamente a mesma sinfonia.

    Francis Guimarães

  • Entre o passado e a madrugada

    Acredito que a vida seja uma jornada de constante aprendizado, na qual passamos por diversas provações, cometemos muitos erros e também alguns acertos. Alguns erros são tentativas de acertar e, por vezes, erramos conscientemente, talvez por teimosia ou simplesmente para tentar a sorte.

    Nos últimos tempos, um terapeuta me aconselhou a escrever sobre as coisas que penso, mas talvez seja melhor não fazer isso. Se eu dissesse tudo o que penso, provavelmente acabaria me metendo em alguns problemas. Brincadeiras à parte, sempre gostei de escrever e, por muitas vezes, pensei em escrever um livro. No entanto, sempre me pareceu difícil organizar todas as ideias e dedicar tempo a esse projeto. Quem sabe um dia.

    Falando em futuro, presente e passado, acredito que sou uma pessoa um tanto quanto diferente. Sempre fui extremamente ansioso, com o olhar voltado para o futuro, talvez um pouco desligado do presente e profundamente conectado ao passado.

    Ultimamente, depois de enfrentar alguns acontecimentos difíceis, principalmente a partida do meu pai para o outro plano, tenho refletido muito sobre a vida e sobre tudo aquilo para o que, antes, nunca consegui parar e olhar com calma.

    Ao fazer uma autocrítica, percebo que algumas coisas permaneceram inalteradas. Em muitos aspectos, ainda me reconheço como o mesmo jovem de quinze anos atrás, com as mesmas manias, desejos e sonhos. Embora alguns desses sonhos tenham se concretizado, admito que nem todos valeram a pena, e alguns se mostraram efêmeros e vazios.

    No entanto, muitas mudanças aconteceram. Aprendi que os sentimentos são como dívidas ativas: com o tempo, tendem a perder a força. Já vivi amores não correspondidos que acreditei serem eternos, assim como tristezas e angústias que pareciam definir quem eu era. Com o passar dos anos, porém, descobri que tudo é passageiro. Não no sentido da modernidade líquida, mas porque nada é eterno, inclusive o nosso tempo por aqui.

    Entre todas as mudanças, o que mais me chama a atenção é a forma como passei a enfrentar os desafios que a vida me apresenta e os conflitos difíceis de resolver, principalmente nos últimos tempos, talvez como parte da transformação que veio depois dos trinta anos.

    Aprendi que, em certos casos, não adianta insistir em debates ou diálogos, porque algumas coisas simplesmente estão fora do nosso controle. Nesses momentos, a melhor atitude é aceitar e seguir em frente. Hoje reconheço que não posso mudar o mundo, embora, no passado, tenha acreditado que conseguiria.

    Na verdade, não era apenas acreditar que poderia mudar o mundo. Era sonhar com essa mudança, sonhar que conseguiria convencer todas as pessoas das minhas ideias. Talvez esse seja um dos sonhos mais ingênuos que um ser humano possa ter.

    Existe um ditado popular que diz que “a dor nos ensina a gemer”. No entanto, percebo que ela também nos obriga a aprender a lidar com os momentos difíceis e, de certa forma, nos torna mais resistentes. É claro que isso não acontece da mesma maneira com todas as pessoas, pois cada um vive suas dores de forma única. Ainda assim, acredito que nos tornamos menos vulneráveis aos percalços da vida quando atravessamos situações adversas.

    Lembro-me de ter chorado por paixões que hoje considero sem sentido. Também tive medo de perder amigos que, na verdade, nunca tive. Temia profundamente a solidão. Hoje, porém, consigo encará-la com mais naturalidade e compreendo que a solitude pode, muitas vezes, ser uma boa companhia.

    Percebo também que muitas coisas às quais antes dava enorme importância hoje me parecem completamente inúteis. Talvez eu apenas não tivesse maturidade para enxergar isso.

    Às vezes, fico imaginando como estarei daqui a trinta anos, caso tenha a oportunidade de continuar refletindo e escrevendo sobre a minha própria vida. Esse pensamento sempre me leva à música “A Lista”, de Oswaldo Montenegro.

    Não sei se esse livro um dia sairá dos meus planos. Mas, enquanto eu tiver insônia e ânimo, continuarei escrevendo. A madrugada parece ser o momento em que meus pensamentos resolvem conversar comigo. Então, de tempos em tempos, vou registrando algumas dessas conversas. Quem sabe um dia elas encontrem seu lugar em um livro.

    Francis Guimarães

  • Orgulho-me exatamente do quê?

    Lembro-me claramente de um momento em que refleti sobre como sou percebido pela sociedade e como percebo a mim mesmo, sendo cego. Foi uma das primeiras vezes em que parei para pensar sobre isso.

    Na época, eu era bem jovem, com cerca de 19 ou 20 anos, não fazia muito tempo que eu havia deixado de enxergar, algumas situações ainda eram novas para mim. Era o início do mês e eu tinha acabado de receber meu salário. Eu estava indo encontrar alguns amigos em um bar, e aquele dia parecia tranquilo, tudo fluía perfeitamente. Enquanto caminhava pelas movimentadas e caóticas quadras da Avenida Voluntários da Pátria, no centro histórico de Porto Alegre, apesar do caos do centro, e da falta de acessibilidade, eu já estava bem acostumado com o trajeto, e assim como diversas outras pessoas cegas adaptei-me à rotina da vida sem visão, mesmo diante de tantos obstáculos, como buracos, placas, vendedores ambulantes e poluição sonora.

    Ao entrar na Rua Coronel Vicente e seguir em direção à Avenida Julho de Castilho, precisei percorrer duas quadras. Nesse trajeto, havia vários cabarés, conhecidos como “inferninhos”, ambientes precários e sujos, na calçada normalmente havia pessoas embriagadas e usuárias de drogas.

    Eu era bastante conhecido nessa região na época, pois era o caminho que eu percorria quase diariamente para chegar à estação de trem. Muitas vezes, os travestis e as garotas de programa me cumprimentavam e até me ajudavam a desviar dos obstáculos.

    Na esquina da Julho de Castilho, muitas vezes eu me deparava com alguns fiéis fanáticos da Igreja Universal do Reino de Deus, distribuindo panfletos e acreditando que estavam salvando a população. Também havia um morador de rua, provavelmente alcoólatra ou com algum transtorno mental, que falava sozinho e, quase sempre, tentava me ajudar a atravessar a rua.

    Naquele dia, ele estava deitado lá, e enquanto eu passava, tropecei em seus trapos e desviei, seguindo adiante por alguns metros. Foi então que uma irmã obreira da Igreja Universal me avistou.

    “Boa noite, meu filho”, ela disse. “Deus mandou eu vir aqui falar contigo.”

    Respondi: “Boa noite, senhora. Obrigado, diga para Deus que estou bem.”

    Eu já imaginava o que aquela mulher queria de mim. Pensei que ela quisesse me converter e tentei desviar da conversa. No entanto, ela pegou em minha mão e disse: “Deixe eu falar de Jesus para você. Ele tem um milagre reservado para sua vida. Ele pode curá-lo, basta você acreditar.”

    Eu tentei argumentar, explicando que não precisava de cura, que minha condição não permitia milagres, que eu estava bem e era feliz assim. Mas nada do que eu dizia parecia suficiente para que aquela mulher compreendesse. Para ela, assim como para grande parte da sociedade, a cegueira é assustadora e desperta piedade.

    Como eu estava em um bom dia, permiti que ela colocasse a mão em minha cabeça e realizasse a oração. Foi uma cena cômica: eu parado na esquina, com uma pessoa desvairada acreditando ser representante de Deus na Terra, com a mão sobre minha cabeça, expulsando o satanás do meu corpo e implorando a Deus por um milagre de cura para minha doença.

    O morador de rua, que estava deitado no chão e falando sozinho, ficou em silêncio, talvez esperando pelo milagre acontecer. Ao finalizar a oração, a religiosa disse: “Avisem-me se alguma luz aparecer.”

    Respondi: “Nem uma luzinha.”

    O sujeito, que estava totalmente fora de si, levantou-se e começou a rir e aplaudir, achando toda a situação muito engraçada.

    A religiosa, indignada, afirmou que minha fé era pequena e que eu era um pecador. Decidi sair dali e seguir meu caminho, deixando aquela experiência para trás.

    Nos dias seguintes, fiquei refletindo sobre a situação que ocorreu. Naquela rua onde eu caminhava, quase uma sucursal do inferno, com tantas adversidades, havia uma variedade de pessoas, cada uma com suas peculiaridades: bêbados, drogados, prostitutas e aquele sujeito esquisito, além de mim, que sou cego. Por que aquela senhora quis me curar, em meio a tantas outras pessoas? Por que ela percebeu exatamente a minha condição?

    Eu estava bem, feliz por ter meu trabalho e por ter recebido meu salário. Por que, dentre tantas pessoas, ela achou que eu precisava daquela oração? Por que ela viu em mim uma suposta necessidade de cura?

    Por que não curou o bêbado do alcoolismo, ou não tentou converter a prostituta?

    Para mim, a resposta é simples. A sociedade ainda carrega vivamente a ideia de piedade e estabelece uma ligação entre a cegueira e a doença, acreditando que a cegueira pode ser curada, seja pela medicina ou pela fé no poder divino. Persiste a ideia de que nós, cegos, somos pessoas tristes, que vivemos nas trevas, que necessitamos de cuidados especiais e que dependemos do auxílio do governo.

    Na canção “Geni e o Zepelim” de Chico Buarque, lançada em 1979, a segunda estrofe menciona os cegos:

    “De tudo que é nego torto

    Do mangue, do cais, do porto

    Ela já foi namorada

    O seu corpo é dos errantes

    Dos cegos, dos retirantes

    É de quem não tem mais nada”

    Se essa música fosse composta nos dias de hoje, certamente seria alvo de cancelamento e críticas por utilizar termos considerados inadequados. No entanto, diante da invisibilidade que nós, cegos, enfrentamos, é pouco provável que esse cancelamento ocorresse devido à inclusão dos cegos no mesmo grupo dos que não têm mais nada.

    Essas reflexões revelam a necessidade de conscientizar a sociedade sobre a diversidade humana e superar estereótipos preconceituosos. É fundamental quebrar os vínculos entre cegueira, doença e piedade, reconhecendo a individualidade e a capacidade das pessoas cegas de viverem plenamente suas vidas, com suas próprias conquistas e desafios.

    Em 2010, durante a Copa do Mundo da FIFA, na TV Globo, uma emissora conhecida por defender a correção política, a apresentadora Fernanda Gentil cometeu uma “gafe” ao entrevistar um homem cego. Ela estendeu o braço para cumprimentá-lo, mas, sendo cego, ele não percebeu.

    Esse incidente repercutiu na internet, chegando até mesmo a se tornar um meme. Em uma entrevista ao programa Altas Horas, também da mesma emissora, Fernanda mencionou o “meme do ceguinho”. Como destacado na publicação do Globo Play, “Jornalista tentou cumprimentar um ceguinho durante programa”.

    Agora, vamos refletir: será que se Fernanda Gentil tivesse cometido uma “gafe” com uma pessoa negra ou com alguém da comunidade LGBTQIA+, isso teria se tornado um meme? Claramente, não se tornaria meme, porque esses outros grupos têm uma visibilidade e uma força enorme.

    Diante de todas essas situações, tendo pleno conhecimento das dificuldades que enfrento por ser cego e compreendendo os imensos desafios que a sociedade impõe às pessoas com deficiência, reconheço que minha vida seria mais fácil se eu pudesse enxergar. No entanto, mesmo diante de tudo isso, sinto um orgulho imenso de ser quem eu sou.

    Com base em minha experiência pessoal como uma pessoa cega e em minha trajetória profissional de mais de 10 anos na área de habilitação e reabilitação de pessoas cegas e com baixa visão, acredito que um dos pilares mais importantes para a reabilitação da pessoa cega reside na aceitação de sua condição.

    É bastante comum encontrar pessoas que perderam a visão e sentem uma profunda vergonha ao utilizar a bengala, ler Braille ou mesmo utilizar recursos de tecnologia assistiva. Muitas pessoas com baixa visão tentam esconder sua condição, e pessoas cegas frequentemente se restringem a ficar em casa devido ao receio do julgamento e dos preconceitos da sociedade.

    Ainda mais comum é perceber que as famílias também apresentam resistência em aceitar e reconhecer seus filhos, cônjuges ou pais com deficiência visual. Para muitas pessoas, é inconcebível associar as palavras “cegueira”, “cego” e “orgulho” na mesma frase.

    Entre as muitas histórias que tive o privilégio de ouvir durante minhas aulas de tecnologia assistiva, destaca-se a história de dona Vilma, uma pessoa com deficiência visual, uma senhora com mais de 40 anos, que passou toda a sua vida em casa, sem nunca frequentar a escola, namorar, casar ou ter qualquer vida social. Sua família sentia vergonha de mostrar para a sociedade que Vilma era cega.

    Quantas outras Vilmas existem no Brasil? Essa pergunta ecoa em minha mente.

    Todos os dias, enfrento uma série de barreiras para ser aceito em uma sociedade despreparada e repleta de preconceitos.

    Lembro com tristeza e revolta de quantas portas se fecharam para mim no mercado de trabalho. No entanto, sinto orgulho ao lembrar que não desisti e não desistirei. É terrível caminhar em cidades desprovidas de acessibilidade, ter que cair em buracos ou bater a cabeça em orelhões. Porém, sinto um imenso orgulho em ter a determinação para lutar contra a falta de acessibilidade e não permitir que os obstáculos me vençam.

    É desafiador viver em um mundo onde a maioria das coisas não é projetada pensando naqueles que possuem alguma deficiência, especialmente para pessoas cegas. Mas sinto um orgulho imenso por todas as pessoas com deficiência que contribuíram para os avanços que já conquistamos.

    Acredito firmemente que, quando sentimos orgulho de quem somos, afastamos completamente os sentimentos de vergonha e inferioridade. Tornamo-nos mais fortes, conscientes de nossos limites e das barreiras e dificuldades que enfrentamos, mas mantemos vivo o sentimento de orgulho por nossas potencialidades e conquistas.

    Talvez, se eu pudesse voltar ao passado e dizer à religiosa que não posso ser curado e que tenho orgulho de ser quem eu sou, ela não entenderia e poderia pensar que além de cego, eu sou maluco. No entanto, não posso e nem pretendo voltar atrás. Em vez disso, gostaria de fomentar o pensamento de que:

    Orgulho-me de ser quem sou, de superar os obstáculos diários e encontrar maneiras de ter uma vida plena. Reconheço que a cegueira faz parte de minha identidade, um aspecto que não me define por completo, mas que contribui para minha singularidade.

    Quero que esse sentimento de orgulho seja um lembrete constante de que, mesmo diante das dificuldades, tenho o direito de garantir meu espaço com dignidade na sociedade.

    É essencial que as pessoas compreendam que a cegueira não é uma deficiência que precisa ser curada ou um motivo para pena. É parte da diversidade humana, assim como tantas outras características e identidades. Ter orgulho de quem sou como pessoa cega é uma forma poderosa de afirmar minha dignidade e exigir respeito.

    Por Francis Guimarães

    Porto Alegre 16 de julho de 2023.

  • O capacitismo dói ainda mais quando afeta nossos filhos

    A sociedade ainda tem um longo caminho a percorrer para se tornar menos capacitista. Existem pensamentos que, infelizmente, parecem estar enraizados em parte da população.

    Algo que me causa profundo incômodo é ouvir frases como: “Que bom que sua filha enxerga, assim ela cuida de você.” “Sua filha tem a missão de cuidar da mamãe e do papai.” “A menina é seus olhos.” “Quando crescer mais um pouco, ela será responsável por vocês.”

    Essas afirmações me irritam profundamente, mas o pior é que, ao tentar argumentar, muitas pessoas se mostram irredutíveis em suas opiniões. Então, passam a falar diretamente com minha filha, Ana Beatriz, de três anos:

    — Sim, você tem que cuidar do papai e da mamãe. Você é os olhos do papai.

    Isso é um absurdo. Além de violar completamente minha autonomia e independência, impõe a uma criança uma responsabilidade que não é dela e nunca será.

    Recentemente, ouvi de uma religiosa a seguinte frase:

    — Deve ser castigo. Se você não quer nem a ajuda da sua filha, é sinal de orgulho.

    Não perdi meu tempo discutindo com essa pessoa, que se mostrou dogmática e de mente fechada, pois um diálogo naquela situação não traria resultado.

    Não se trata de orgulho ou de não querer ajuda, mas de compreender que a responsabilidade de um pai, seja ele cego ou não, é cuidar de seu filho. A ideia de que nós, pessoas cegas, precisamos de ajuda o tempo todo é um grande equívoco. Cada pessoa é única, com suas potencialidades e limitações, mas, em geral, as pessoas cegas têm autonomia para realizar suas atividades. Essa percepção de que somos seres que necessitam de cuidados associa cegueira à doença, o que não corresponde à realidade.

    É claro que, um dia, na velhice ou até antes, por alguma adversidade da vida, eu possa precisar dos cuidados da minha esposa, dos meus amigos e também da minha filha, assim como qualquer outra pessoa. Mas, no que diz respeito à minha filha, ela crescerá recebendo todos os cuidados necessários. Eu a medicarei quando estiver doente, a levarei ao médico, prepararei sua comida, trocarei suas fraldas, darei banho, ensinarei sobre o mundo e cumprirei todas as tarefas que me cabem como pai.

    Além disso, precisarei conscientizá-la de que vivemos em um mundo que não foi construído para mim. Terei que explicar inúmeras vezes que ela não tem a responsabilidade que tantos insistem em lhe atribuir: cuidar de mim ou ser meus olhos.

    Ela é e sempre será o grande amor da minha vida. Quando crescer, se formar, trabalhar, talvez se casar e seguir seu próprio caminho, encontrará em minha casa um lar acolhedor, com comida pronta e mesa posta. Ela compreenderá plenamente que seu pai possui limitações decorrentes da deficiência, mas que é plenamente capaz.

    Ela saberá que seu pai sempre cuidou e sempre cuidará dela. E, quem sabe, um dia serei o avô que ajudará a cuidar dos netos.

    Sigo firme, mas é difícil ouvir minha filha, ainda tão pequena, perguntar:

    — Papai, por que eu tenho que cuidar de você?

    Minha resposta é sempre a mesma:

    — Você não precisa cuidar de mim. Eu sempre cuidarei de você. Algumas pessoas não conhecem nossa vida e acabam dizendo coisas sem sentido.

    Situações como essa nos transformam aos poucos. Cada episódio de preconceito, cada julgamento precipitado e cada tentativa de diminuir nossa autonomia deixam marcas. Com o tempo, essas marcas mudam a forma como enxergamos a vida e nos obrigam a desenvolver uma força que talvez nunca tivéssemos precisado construir.

    Ao refletir sobre minha jornada até aqui, chego à conclusão de que, ao nascermos, somos como pedras polidas, semelhantes ao quartzo-rosa ou à turmalina-negra. Temos em nossa essência a delicadeza e a beleza de uma pirâmide de ametista.

    No entanto, à medida que o tempo passa e nos deparamos com a realidade, experimentamos a solidão, o abandono, as tristezas e as amarguras. É como se essa pedra polida fosse sendo devolvida à sua forma bruta. Cada frustração, decepção e perda torna essa pedra mais áspera, mas também mais resistente diante das turbulências da vida.

    À medida que a pedra perde sua polidez, os tombos deixam de machucá-la tanto, e as quedas já não abalam sua estrutura. Talvez a pedra bruta não possua a mesma beleza ou não seja tão agradável aos olhos de quem a observa, mas carrega consigo sua própria beleza e seu próprio valor. Mesmo marcada pelo tempo e pelas dificuldades, sua essência continua brilhando.

    Quando nos tornamos pedra bruta, desenvolvemos resistência diante das circunstâncias infelizes às quais somos submetidos. Em algum momento, em um tempo já distante, eu também fui uma pedra polida. Talvez o segredo da felicidade esteja em compreender esse processo e encontrar formas de caminhar com tranquilidade e resiliência pela jornada que, inevitavelmente, nos transforma em pedras brutas.

    Francis Guimarães

  • A Importância das Imagens em Sites e Aplicativos

    Já refletiu sobre a importância das imagens em sites e aplicativos?

    Imagine navegar por um site onde as imagens não fazem sentido algum. Em um marketplace ou nas redes sociais, você encontra diversas imagens que não consegue identificar. Embora saiba que elas estão ali, elas podem ser apenas gráficos ou códigos que não transmitem nenhuma informação relevante.

    Você se depara com um grande título dizendo: “Inovador, moderno e potente, tudo isso por apenas R$ 3.000.” Ao rolar a página, encontra apenas uma imagem identificada como “gráfico”, sem qualquer informação adicional, tornando impossível compreender a que o anúncio se refere.

    As imagens são fundamentais para a compreensão do conteúdo visual de sites e aplicativos. No entanto, para nós, pessoas cegas, a falta de descrições adequadas pode transformar a navegação em uma experiência frustrante.

    Um exemplo é um site que anunciava um aparelho de som com um título bastante atrativo, mas cuja imagem não possuía descrição. Ao utilizar um leitor de telas, a única informação apresentada era a palavra “gráfico”. Eu sabia que existia uma imagem, mas não havia qualquer descrição que me permitisse compreender o produto anunciado.

    Por isso, é essencial que todas as imagens sejam acompanhadas de descrições adequadas. Elas fornecem contexto e significado, tornando o conteúdo visual acessível e útil para todos. A ausência de descrições dificulta a compreensão das informações e torna a navegação confusa e frustrante.

    O Design Universal valoriza a inclusão de descrições de imagens em sites e aplicativos. Embora alguns desenvolvedores imaginem que adicionar essas descrições seja algo complexo, principalmente quando ainda não estão familiarizados com acessibilidade, na prática trata-se de um processo simples e direto.

    Neste vídeo, demonstro como é fácil utilizar a inteligência artificial para gerar descrições de imagens e inserir o código necessário para disponibilizá-las corretamente.

    https://youtu.be/mlzQ6g_WM84

    Ao incorporar descrições de imagens em sites e aplicativos, eliminamos barreiras que tornam o conteúdo visual incompreensível para milhares de pessoas cegas.

    É importante lembrar que a descrição de imagens é apenas um dos aspectos da acessibilidade digital. Para que um site ou aplicativo seja verdadeiramente acessível, diversos outros elementos também precisam ser considerados.

    Francis Guimarães

  • Alimentos da emoção

    Chegamos a um momento da vida em que passamos a compreender a importância de instantes que antes eram comuns e sem grande significado. Há algum tempo, venho refletindo sobre a minha alimentação e o verdadeiro sentido de comer.

    É claro que sabemos que, para a maioria das pessoas, comer é um prazer. Saborear pratos deliciosos, sejam salgados ou doces, é algo que apreciamos. Além disso, é uma necessidade básica para a nutrição, algo que médicos e nutricionistas explicam com clareza.

    Mas comer também carrega uma bagagem emocional profunda. É maravilhoso vivenciar o ato de se alimentar e sentir as emoções e recordações que cada comida pode despertar.

    Acredito que falar sobre as emoções associadas à comida com as crianças é algo extremamente importante. Não apenas sobre a comida em si, mas, principalmente, sobre o momento da refeição. Quando eu era criança, ninguém me disse que aquelas refeições maravilhosas ficariam registradas para sempre. Não me contaram que, no futuro, os pratos que eu degustava despertariam lindas lembranças, aproximando o adulto que sou hoje daquele menino cheio de sonhos e esperanças.

    Nunca imaginei que haveria receitas que eu jamais provaria novamente, pois o tempero vinha do momento, do amor que envolvia a preparação daquela comida.

    As pizzas caseiras, com molho e queijo, assadas na velha forma retangular de alumínio, nunca mais terei a chance de provar. O “budim”, sim, era assim que a vovó chamava o pudim dela, não terá igual. As torradas prensadas com a chaleira no bico do fogão, o cheiro de café misturado ao cigarro do meu avô, a lasanha especial da minha irmã, o revirado de arroz com feijão e ovo frito que meu pai muitas vezes comia direto da panela.

    Cada uma dessas comidas traz de volta as lembranças de um tempo bom, momentos simples, mas de felicidade.

    Às vezes, sinto um vazio, uma saudade da infância. Então saboreio uma tortinha de limão e lembro de mim e dos meus irmãos, ainda pequenos. Como uma laranja-de-umbigo e penso com carinho no meu pai. Faço um revirado e levo minha filha para perto do fogão, contando a ela as histórias da minha infância e como eu também comia o revirado feito pela minha mãe.

    É importante percebermos como as lembranças podem se transformar em momentos mágicos, em que, se nos permitirmos, conseguimos revisitar os bons tempos.

    Em uma tarde de profunda tristeza e aflição, em que me encontrava remoendo as angústias do passado, como um flash de memória, recordei-me da infância. Aos domingos, em minha casa, era comum comermos arroz, feijão, salada de maionese e bife à milanesa.

    Então fui a um restaurante e pedi exatamente esse prato. Procurei me lembrar de cada instante bom, de cada segundo de felicidade que vivi aos domingos com minha família.

    Foi como se aquele prato de comida me transportasse por um túnel do tempo, e eu pudesse revisitar cenas bonitas da minha infância.

    Minha história até aqui não foi apenas doce; teve seus momentos amargos e azedos. Mas me esforço para valorizar mais os momentos doces e tento, ao máximo, guardar os momentos azedos na última gaveta da despensa das emoções.

    Nesta madrugada de insônia, senti saudade do passado, saudade de ver minha mãe cozinhando. Mas me senti privilegiado, pois tinha na geladeira um mocotó que ela havia preparado e deixado congelado para mim. Descongelei o mocotó durante a madrugada, coloquei água na panela e mexi enquanto fervia. Em pensamento, agradeci ao Criador por me permitir desfrutar desse momento, por me dar a chance de saborear a comida preparada com tanto carinho pela minha mãe.

    Agradeci também por todos os sabores de amor que provei ao longo da minha vida.

    As comidas, as refeições, não são apenas alimentos. São momentos e emoções que nos acompanham por toda a vida, uma forma direta de conexão com os mais belos e profundos sentimentos.

    Francis Guimarães