Entre o passado e a madrugada

Acredito que a vida seja uma jornada de constante aprendizado, na qual passamos por diversas provações, cometemos muitos erros e também alguns acertos. Alguns erros são tentativas de acertar e, por vezes, erramos conscientemente, talvez por teimosia ou simplesmente para tentar a sorte.

Nos últimos tempos, um terapeuta me aconselhou a escrever sobre as coisas que penso, mas talvez seja melhor não fazer isso. Se eu dissesse tudo o que penso, provavelmente acabaria me metendo em alguns problemas. Brincadeiras à parte, sempre gostei de escrever e, por muitas vezes, pensei em escrever um livro. No entanto, sempre me pareceu difícil organizar todas as ideias e dedicar tempo a esse projeto. Quem sabe um dia.

Falando em futuro, presente e passado, acredito que sou uma pessoa um tanto quanto diferente. Sempre fui extremamente ansioso, com o olhar voltado para o futuro, talvez um pouco desligado do presente e profundamente conectado ao passado.

Ultimamente, depois de enfrentar alguns acontecimentos difíceis, principalmente a partida do meu pai para o outro plano, tenho refletido muito sobre a vida e sobre tudo aquilo para o que, antes, nunca consegui parar e olhar com calma.

Ao fazer uma autocrítica, percebo que algumas coisas permaneceram inalteradas. Em muitos aspectos, ainda me reconheço como o mesmo jovem de quinze anos atrás, com as mesmas manias, desejos e sonhos. Embora alguns desses sonhos tenham se concretizado, admito que nem todos valeram a pena, e alguns se mostraram efêmeros e vazios.

No entanto, muitas mudanças aconteceram. Aprendi que os sentimentos são como dívidas ativas: com o tempo, tendem a perder a força. Já vivi amores não correspondidos que acreditei serem eternos, assim como tristezas e angústias que pareciam definir quem eu era. Com o passar dos anos, porém, descobri que tudo é passageiro. Não no sentido da modernidade líquida, mas porque nada é eterno, inclusive o nosso tempo por aqui.

Entre todas as mudanças, o que mais me chama a atenção é a forma como passei a enfrentar os desafios que a vida me apresenta e os conflitos difíceis de resolver, principalmente nos últimos tempos, talvez como parte da transformação que veio depois dos trinta anos.

Aprendi que, em certos casos, não adianta insistir em debates ou diálogos, porque algumas coisas simplesmente estão fora do nosso controle. Nesses momentos, a melhor atitude é aceitar e seguir em frente. Hoje reconheço que não posso mudar o mundo, embora, no passado, tenha acreditado que conseguiria.

Na verdade, não era apenas acreditar que poderia mudar o mundo. Era sonhar com essa mudança, sonhar que conseguiria convencer todas as pessoas das minhas ideias. Talvez esse seja um dos sonhos mais ingênuos que um ser humano possa ter.

Existe um ditado popular que diz que “a dor nos ensina a gemer”. No entanto, percebo que ela também nos obriga a aprender a lidar com os momentos difíceis e, de certa forma, nos torna mais resistentes. É claro que isso não acontece da mesma maneira com todas as pessoas, pois cada um vive suas dores de forma única. Ainda assim, acredito que nos tornamos menos vulneráveis aos percalços da vida quando atravessamos situações adversas.

Lembro-me de ter chorado por paixões que hoje considero sem sentido. Também tive medo de perder amigos que, na verdade, nunca tive. Temia profundamente a solidão. Hoje, porém, consigo encará-la com mais naturalidade e compreendo que a solitude pode, muitas vezes, ser uma boa companhia.

Percebo também que muitas coisas às quais antes dava enorme importância hoje me parecem completamente inúteis. Talvez eu apenas não tivesse maturidade para enxergar isso.

Às vezes, fico imaginando como estarei daqui a trinta anos, caso tenha a oportunidade de continuar refletindo e escrevendo sobre a minha própria vida. Esse pensamento sempre me leva à música “A Lista”, de Oswaldo Montenegro.

Não sei se esse livro um dia sairá dos meus planos. Mas, enquanto eu tiver insônia e ânimo, continuarei escrevendo. A madrugada parece ser o momento em que meus pensamentos resolvem conversar comigo. Então, de tempos em tempos, vou registrando algumas dessas conversas. Quem sabe um dia elas encontrem seu lugar em um livro.

Francis Guimarães

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