Você já teve frieira?
Não?
Mas tenho certeza de que já ouviu falar. É algo muito comum, que grande parte das pessoas tem ou já teve em algum momento da vida. Algo simples de tratar, uma espécie de fungo ou micose que normalmente aparece entre os dedos dos pés, principalmente quando não os secamos bem após o banho. É algo simples e de fácil tratamento, mas que, quando não tratado, pode incomodar bastante. No meu caso, a frieira entre o dedo mínimo e o anular inflamou e estava trazendo um desconforto muito grande.
Incrível, cegos também têm frieira!
Depois de um longo dia de trabalho, com muita dor no pé por causa da minha frieira não tratada, resolvi ir ao pronto atendimento. Dizem que não é recomendado se automedicar, então vamos consultar um médico.
Desembarco do Uber, desdobro meu bengalão e vou caminhando em direção à porta de entrada. Observo as pessoas que estão à volta. Várias delas param de falar e cochicham a meu respeito:
— Olha que interessante, um cego!
— Será que ele quer consultar?
— Será que ele quer ir ao balcão?
E, nesse “será que será”, uma mão toca o meu ombro e, sem dizer nada, me carrega até um balcão, como se carregasse uma mala ou um saco de batatas. Não falo nada, pois não estou com disposição para explicar que essa maneira de conduzir uma pessoa cega está errada.
No balcão de atendimento, a recepcionista preenche meus dados e me encaminha para a triagem. Lá estou eu, sentado, ouvindo os pacientes anteriores serem chamados, até que a enfermeira responsável chama:
— Wesley!
E o bendito Wesley não apareceu.
Mais uma vez e mais alto ela o chama:
— Wesley!
Agora, ainda mais alto e mais perto de mim, ela novamente chama:
— Wesley! Wesley! Wesley!
Nesse momento, já havia compreendido que ela pensava que eu pudesse ser o paciente Wesley. Então, a enfermeira, que imaginou que eu fosse surdo ou estivesse dormindo, perguntou em alto tom de voz:
— VOCÊ É WESLEY?
— Prazer, Francis Guimarães. Se eu me chamasse Wesley, estaria de pé.
Com o desaparecimento do paciente Wesley, a enfermeira resolveu me passar na frente.
Ao entrar na sala, ela disse:
— Vou te colocar sentadinho aqui nessa cadeirinha. Vou verificar sua pressão. Você consegue tirar o casaquinho?
— Muito bem! Agora vou medir sua pressão. Vai apertar só um pouquinho seu bracinho.
Logo depois, a mesma enfermeira me levou até o corredor de espera, onde eu aguardaria um dos médicos para o atendimento. Ela me colocou sentado em outra cadeirinha e disse:
— Não saia daqui.
Falou naquele tom de voz como quem fala com uma criança de seis ou sete anos.
Depois de alguns minutos, a médica chama:
— Francis Guimarães.
Monto meu bengalão e me dirijo até a sala. Ela chama novamente, encontro a porta e entro.
— Boa noite, doutora.
Após alguns segundos de silêncio, a médica pergunta:
— Francis Guimarães?
— Sim, eu mesmo. Boa noite, doutora.
— Hum… Boa noite. Você está sozinho?
— A senhora está vendo alguém comigo?
— Como você chegou aqui?
— Caminhando. E a senhora?
A médica, confusa e um tanto quanto incomodada, muda o assunto e pergunta:
— O que você tem?
— Acredito ser frieira, uma espécie de ferida entre os dedos. Tem me incomodado bastante. Dói e meu pé está um pouco inchado.
Ela examinou rapidamente e perguntou:
— Desde quando é diabético?
— Eu, diabético? Nossa, nem sabia. A senhora que está dizendo.
— Por que não enxerga?
— Distrofia de cones e bastonetes, doença degenerativa da retina.
— Pensei que fosse diabetes.
Nesse momento, eu, já com pouca paciência e louco para chegar em casa, respondi:
— Na verdade, a senhora estava curiosa para saber o motivo da minha cegueira, então jogou um verde para colher maduro. Inúmeras doenças levam à cegueira, não apenas o diabetes.
Novamente, alguns instantes de silêncio.
— Vou encaminhá-lo para um dermatologista e lhe passar uma pomada anti-inflamatória. Serão dois papéis. Como você vai guardá-los?
— No bolso da calça.
— Mas como vai saber qual é qual?
— Vou dobrá-los de maneira diferente e colocá-los em ordem. Assim consigo me organizar.
— Genial! Vocês são demais! Que lindo! Recomendo que coloque seus calçados todos os dias no sol e que não utilize o mesmo sapato por três dias. Quem cuida da sua roupa?
— Eu mesmo cuido da minha roupa. Por quê?
— Nossa, que coisa. Mas daí complica saber se você não saiu com o mesmo calçado do dia anterior.
— Só se eu fosse uma besta completa para não saber diferenciar meus sapatos. Doutora, como meu pé está doendo bastante, será que seria possível a senhora emitir um atestado?
— Você trabalha?
— Sim, trabalho. Se não trabalhar, não pago o plano de saúde.
— Você trabalha longe?
— Olha, doutora, longe depende de onde. Da minha casa eu levo uma hora e meia até o trabalho.
— Nossa, quem te leva?
— O trem e o ônibus. Eles me levam e me trazem.
Nesse momento, um silêncio profundo tomou conta do consultório. Ela não tinha palavras e eu não tinha paciência nem vontade de explicar nada. Só queria o encontro mágico com minha cama.
Peguei meus papéis, chamei meu Uber e parti.
No outro dia, acordei com o pé mais inchado e com mais dor do que no dia anterior. Aparentemente, a pomada não resolveu o problema. Liguei para o plano de saúde e marquei um clínico geral. Nessa ocasião fui acompanhado do meu cão-guia, porque era dia e eu teria que caminhar até o consultório.
Chegando ao local da consulta, no primeiro momento o médico disse que não poderia aceitar minha entrada no consultório com o cão-guia. Expliquei que era Lei Federal e que ele não poderia negar minha entrada.
A recepcionista explicou a situação e, por fim, cumprindo a lei, ele permitiu minha entrada.
— Boa tarde, doutor.
— Boa tarde. Estou impressionado. É a primeira vez que atendo um cachorro.
— Hum… mas eu sou um ser humano. Se o senhor olhar bem para mim e prestar atenção nos detalhes, vai perceber isso.
— Desculpe. É que realmente é algo incrível. Tenho 70 anos e nunca imaginei ter um cão no meu consultório.
Com muita paciência e bastante dor no pé, expliquei um pouco sobre o treinamento dos cães-guia, o comportamento que eles precisam ter, a legislação e a importância que têm em nossas vidas. Mesmo em um momento de profundo desconforto, penso que devemos ser agentes de informação e contribuir para melhorar o mundo.
— Doutor, vim até aqui porque estou com muita dor no meu pé. Estive ontem na emergência e a médica passou uma pomada para frieira, mas a dor está mais forte.
O médico ouviu e perguntou:
— Por que você é cego?
— Distrofia de cones, doença degenerativa da retina.
— Faz tempo que não enxerga?
— Sim, faz.
— Você trabalha?
— Sim, trabalho.
— Trabalha com o quê?
— Sou professor de informática.
— Mas como? Deve ser difícil ser professor nessa condição!
— Sim, é uma merda mesmo. O senhor nem imagina. Dar aula com essa dor no pé ninguém aguenta. Pior que isso é procurar um médico para tentar resolver o problema e ter que dar uma entrevista. Façamos o seguinte, doutor: eu respondo todas as suas dúvidas, mas depois, quem sabe, o senhor olha o meu pé, que está doendo? Ontem, na emergência, sua colega médica, também cheia de curiosidades, me fez uma entrevista parecida com a sua, mas mal olhou meu pé. Acho que o senhor poderia esclarecer suas dúvidas em outro momento, porque preciso que tenha o mínimo de foco no meu pé.
O médico, percebendo minha irritação, resolveu examinar meu pé. Vestiu as luvas, examinou entre meus dedos, apalpou bem o pé, perguntou onde doía. Voltou até sua cadeira e disse:
— O que você tem é erisipela, um processo infeccioso da pele. Realmente seu pé está inchado e febril. Deve iniciar o antibiótico logo. Vou lhe receitar o medicamento. Peço desculpas pela minha colega de ontem e também pelo meu excesso de perguntas. É que não é comum ver pessoas cegas, ainda mais sozinhas. Tenho 70 anos e nunca havia atendido uma pessoa cega.
— Compreendo, doutor. Não me importo de responder aos questionamentos e esclarecer dúvidas, mas causa um incômodo bastante grande as pessoas perceberem apenas minha deficiência, sem conseguir compreender que ela é apenas uma das muitas características que tenho. Principalmente quando isso vem de quem deveria ter preparo para lidar com a diversidade.
A consulta se encerrou e, mais uma vez, fiquei refletindo sobre esses fatos que ocorrem com frequência com pessoas cegas que vivem com autonomia e independência.
É lastimável perceber que grande parte da sociedade é extremamente ignorante quando o assunto somos nós, pessoas com deficiência.
Frieira é uma merda. Incomoda muito. Porém, a desinformação e a ignorância incomodam muito mais.
Erisipela dói pra caramba. Porém, o capacitismo, o preconceito e a discriminação ferem e doem muito mais.
Para frieira temos pomadas. Para erisipela, antibióticos.
O que temos para a desinformação, o preconceito e o capacitismo?
Como curar a sociedade desse mal que parece incurável?
Às vezes me sinto chato, ranzinza, mal-humorado e impaciente. Penso que deveria buscar mais calma e paciência para enfrentar os dissabores do dia a dia. Alguns amigos aconselham a não levar tudo para o coração. Outros dizem que a vida da pessoa cega é assim mesmo, que é preciso aceitar e seguir em frente. Mas existe algo dentro de mim que considera inadmissível aceitar viver em uma sociedade tão problemática. Sinto a necessidade de contribuir para mudar essa realidade.
Essa semana, enquanto eu ouvia a novela Pantanal, das 21 horas, passou uma cena que me fez refletir sobre a importância da visibilidade e sobre como outros grupos minoritários conseguem ocupar espaços na mídia, contribuindo para educar a sociedade.
Em um diálogo entre o personagem Zaqueu, interpretado por Silvério Pereira, e Alcides, interpretado por Juliano Cazarré, Zaqueu, que é homossexual, explica para Alcides, um peão ignorante, o que é ser gay e o orgulho que tem de ser quem é:
“— Para seu governo, Alcides, nós também amamos.
— Ah, então você está admitindo aí que você é?
— Homossexual, das letrinhas LGBTQIA+, e o G aqui não é de gado não, é de gay, de gente.
— E o que quer dizer isso?
— Quer dizer que eu sinto atração por gente do mesmo sexo.
— Aí você fala isso assim com a maior naturalidade?
— Ter atração por alguém do mesmo sexo é tão natural quanto você ter atração pelo sexo oposto!
— É que você fala as coisas de um jeito… parece até que você tem orgulho.
— Eu tenho orgulho, Alcides. Não é pouco, não. Tenho muito orgulho de ser quem eu sou, de tudo que enfrentei para conseguir chegar até aqui, de tudo que todos que vieram antes de mim tiveram que enfrentar para que eu não me sentisse diminuído por ser quem eu sou. Gostar de quem eu gosto. Aprendeu?
— Aprendi.”
Esse diálogo me emocionou. Acredito que representa a voz de milhares de pessoas LGBTQIA+ e que, para elas, essa cena colabora muito na construção de uma sociedade menos intolerante e preconceituosa.
Ao mesmo tempo, fiquei refletindo sobre a visibilidade das pessoas com deficiência. Em que momento teremos uma participação em horário nobre da televisão brasileira abordando nossas causas? Imaginem um artista com deficiência interpretando um personagem com deficiência e dizendo ter orgulho de ser quem é, orgulho de todos que lutaram antes por nossos direitos. E, ao final, perguntando ao outro personagem:
— Aprendeu?
Na verdade, essa pergunta final é direcionada à sociedade. O que muitos chamam de lacração é, na verdade, uma forma de conscientizar as pessoas e construir um mundo mais inclusivo.
Tenho clareza de que nós, pessoas com deficiência, já conquistamos grandes avanços. Porém, ainda temos um longo caminho a percorrer para chegarmos perto de uma sociedade minimamente inclusiva.
Por que o movimento das pessoas com deficiência quase nunca utiliza o termo orgulho? Ao menos eu nunca ouvi esse termo ser utilizado.
Parte da sociedade ainda associa deficiência à doença, algo que pode ser curado pelo avanço da medicina ou por um milagre divino. Outra parte acredita que precisamos ser infantilizados, que somos seres assexuados e que nascemos para ser superprotegidos, cuidados e tutelados. Entre essas pessoas, muitas vezes estão familiares e profissionais que trabalham com educação, habilitação e reabilitação. E, infelizmente, em alguns casos, essa também é a visão que algumas pessoas com deficiência têm de si mesmas.
Tenho a convicção de que precisamos ter orgulho de quem somos e do que conseguimos conquistar. Driblando milhares de barreiras culturais, arquitetônicas e atitudinais, seguimos em frente, diariamente enfrentando o preconceito, a discriminação e o capacitismo extremo presentes em diversos espaços da nossa sociedade.
No mundo do trabalho, na educação básica, na universidade, nos espaços culturais e sociais, lá estão as barreiras. E lá estamos nós para rompê-las e mostrar nossas capacidades.
Tenho orgulho, sim. Muito orgulho de ler com a ponta dos dedos o sistema mais lindo de leitura e escrita, criado por um jovem estudante cego: Louis Braille.
Tenho orgulho de caminhar com minha bengala pelas cidades do meu país e conseguir vencer a gigantesca falta de acessibilidade.
Tenho imenso orgulho de ver diversos amigos com deficiência, nas mais variadas áreas do serviço público e privado, mostrando que é possível vencer as barreiras impostas pela sociedade.
Quando fui impedido de entrar no museu em Ouro Preto, fiquei extremamente revoltado, mas senti orgulho de não desistir e entrar mesmo contra a vontade de quem administrava aquele local, provando que sou um cidadão como qualquer outro e que meu direito deve ser respeitado.
Tenho orgulho de fazer a Lei do Cão-Guia ser respeitada e, dessa forma, entrar em diversos ambientes.
Tenho orgulho de todos nós que conseguimos nos formar, mesmo estudando em universidades muitas vezes despreparadas.
Quando assisto à televisão aberta ou aos streamings e encontro conteúdos com audiodescrição, fico contente e sinto orgulho de quem lutou para tornar isso realidade.
Quando chego à farmácia e leio a caixa de remédio em Braille, também lembro que é uma conquista nossa.
Acredito que precisamos ter maior visibilidade. A sociedade precisa nos perceber de outra forma. Devemos estar presentes em todos os espaços. E precisamos vestir a camisa da nossa causa e nos orgulhar disso.
É preciso plantar essa semente e regá-la diariamente para que, quem sabe, daqui a cinquenta ou cem anos, outras pessoas com deficiência possam colher esses frutos.
E, quem sabe, as suas frieiras ou erisipelas não sejam mais tão desconfortáveis.
Francis Guimarães
Orgulho de ser uma pessoa cega e superar as barreiras impostas pela sociedade.
Porto Alegre, 29 de agosto de 2022.

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