Orgulho-me exatamente do quê?

Lembro-me claramente de um momento em que refleti sobre como sou percebido pela sociedade e como percebo a mim mesmo, sendo cego. Foi uma das primeiras vezes em que parei para pensar sobre isso.

Na época, eu era bem jovem, com cerca de 19 ou 20 anos, não fazia muito tempo que eu havia deixado de enxergar, algumas situações ainda eram novas para mim. Era o início do mês e eu tinha acabado de receber meu salário. Eu estava indo encontrar alguns amigos em um bar, e aquele dia parecia tranquilo, tudo fluía perfeitamente. Enquanto caminhava pelas movimentadas e caóticas quadras da Avenida Voluntários da Pátria, no centro histórico de Porto Alegre, apesar do caos do centro, e da falta de acessibilidade, eu já estava bem acostumado com o trajeto, e assim como diversas outras pessoas cegas adaptei-me à rotina da vida sem visão, mesmo diante de tantos obstáculos, como buracos, placas, vendedores ambulantes e poluição sonora.

Ao entrar na Rua Coronel Vicente e seguir em direção à Avenida Julho de Castilho, precisei percorrer duas quadras. Nesse trajeto, havia vários cabarés, conhecidos como “inferninhos”, ambientes precários e sujos, na calçada normalmente havia pessoas embriagadas e usuárias de drogas.

Eu era bastante conhecido nessa região na época, pois era o caminho que eu percorria quase diariamente para chegar à estação de trem. Muitas vezes, os travestis e as garotas de programa me cumprimentavam e até me ajudavam a desviar dos obstáculos.

Na esquina da Julho de Castilho, muitas vezes eu me deparava com alguns fiéis fanáticos da Igreja Universal do Reino de Deus, distribuindo panfletos e acreditando que estavam salvando a população. Também havia um morador de rua, provavelmente alcoólatra ou com algum transtorno mental, que falava sozinho e, quase sempre, tentava me ajudar a atravessar a rua.

Naquele dia, ele estava deitado lá, e enquanto eu passava, tropecei em seus trapos e desviei, seguindo adiante por alguns metros. Foi então que uma irmã obreira da Igreja Universal me avistou.

“Boa noite, meu filho”, ela disse. “Deus mandou eu vir aqui falar contigo.”

Respondi: “Boa noite, senhora. Obrigado, diga para Deus que estou bem.”

Eu já imaginava o que aquela mulher queria de mim. Pensei que ela quisesse me converter e tentei desviar da conversa. No entanto, ela pegou em minha mão e disse: “Deixe eu falar de Jesus para você. Ele tem um milagre reservado para sua vida. Ele pode curá-lo, basta você acreditar.”

Eu tentei argumentar, explicando que não precisava de cura, que minha condição não permitia milagres, que eu estava bem e era feliz assim. Mas nada do que eu dizia parecia suficiente para que aquela mulher compreendesse. Para ela, assim como para grande parte da sociedade, a cegueira é assustadora e desperta piedade.

Como eu estava em um bom dia, permiti que ela colocasse a mão em minha cabeça e realizasse a oração. Foi uma cena cômica: eu parado na esquina, com uma pessoa desvairada acreditando ser representante de Deus na Terra, com a mão sobre minha cabeça, expulsando o satanás do meu corpo e implorando a Deus por um milagre de cura para minha doença.

O morador de rua, que estava deitado no chão e falando sozinho, ficou em silêncio, talvez esperando pelo milagre acontecer. Ao finalizar a oração, a religiosa disse: “Avisem-me se alguma luz aparecer.”

Respondi: “Nem uma luzinha.”

O sujeito, que estava totalmente fora de si, levantou-se e começou a rir e aplaudir, achando toda a situação muito engraçada.

A religiosa, indignada, afirmou que minha fé era pequena e que eu era um pecador. Decidi sair dali e seguir meu caminho, deixando aquela experiência para trás.

Nos dias seguintes, fiquei refletindo sobre a situação que ocorreu. Naquela rua onde eu caminhava, quase uma sucursal do inferno, com tantas adversidades, havia uma variedade de pessoas, cada uma com suas peculiaridades: bêbados, drogados, prostitutas e aquele sujeito esquisito, além de mim, que sou cego. Por que aquela senhora quis me curar, em meio a tantas outras pessoas? Por que ela percebeu exatamente a minha condição?

Eu estava bem, feliz por ter meu trabalho e por ter recebido meu salário. Por que, dentre tantas pessoas, ela achou que eu precisava daquela oração? Por que ela viu em mim uma suposta necessidade de cura?

Por que não curou o bêbado do alcoolismo, ou não tentou converter a prostituta?

Para mim, a resposta é simples. A sociedade ainda carrega vivamente a ideia de piedade e estabelece uma ligação entre a cegueira e a doença, acreditando que a cegueira pode ser curada, seja pela medicina ou pela fé no poder divino. Persiste a ideia de que nós, cegos, somos pessoas tristes, que vivemos nas trevas, que necessitamos de cuidados especiais e que dependemos do auxílio do governo.

Na canção “Geni e o Zepelim” de Chico Buarque, lançada em 1979, a segunda estrofe menciona os cegos:

“De tudo que é nego torto

Do mangue, do cais, do porto

Ela já foi namorada

O seu corpo é dos errantes

Dos cegos, dos retirantes

É de quem não tem mais nada”

Se essa música fosse composta nos dias de hoje, certamente seria alvo de cancelamento e críticas por utilizar termos considerados inadequados. No entanto, diante da invisibilidade que nós, cegos, enfrentamos, é pouco provável que esse cancelamento ocorresse devido à inclusão dos cegos no mesmo grupo dos que não têm mais nada.

Essas reflexões revelam a necessidade de conscientizar a sociedade sobre a diversidade humana e superar estereótipos preconceituosos. É fundamental quebrar os vínculos entre cegueira, doença e piedade, reconhecendo a individualidade e a capacidade das pessoas cegas de viverem plenamente suas vidas, com suas próprias conquistas e desafios.

Em 2010, durante a Copa do Mundo da FIFA, na TV Globo, uma emissora conhecida por defender a correção política, a apresentadora Fernanda Gentil cometeu uma “gafe” ao entrevistar um homem cego. Ela estendeu o braço para cumprimentá-lo, mas, sendo cego, ele não percebeu.

Esse incidente repercutiu na internet, chegando até mesmo a se tornar um meme. Em uma entrevista ao programa Altas Horas, também da mesma emissora, Fernanda mencionou o “meme do ceguinho”. Como destacado na publicação do Globo Play, “Jornalista tentou cumprimentar um ceguinho durante programa”.

Agora, vamos refletir: será que se Fernanda Gentil tivesse cometido uma “gafe” com uma pessoa negra ou com alguém da comunidade LGBTQIA+, isso teria se tornado um meme? Claramente, não se tornaria meme, porque esses outros grupos têm uma visibilidade e uma força enorme.

Diante de todas essas situações, tendo pleno conhecimento das dificuldades que enfrento por ser cego e compreendendo os imensos desafios que a sociedade impõe às pessoas com deficiência, reconheço que minha vida seria mais fácil se eu pudesse enxergar. No entanto, mesmo diante de tudo isso, sinto um orgulho imenso de ser quem eu sou.

Com base em minha experiência pessoal como uma pessoa cega e em minha trajetória profissional de mais de 10 anos na área de habilitação e reabilitação de pessoas cegas e com baixa visão, acredito que um dos pilares mais importantes para a reabilitação da pessoa cega reside na aceitação de sua condição.

É bastante comum encontrar pessoas que perderam a visão e sentem uma profunda vergonha ao utilizar a bengala, ler Braille ou mesmo utilizar recursos de tecnologia assistiva. Muitas pessoas com baixa visão tentam esconder sua condição, e pessoas cegas frequentemente se restringem a ficar em casa devido ao receio do julgamento e dos preconceitos da sociedade.

Ainda mais comum é perceber que as famílias também apresentam resistência em aceitar e reconhecer seus filhos, cônjuges ou pais com deficiência visual. Para muitas pessoas, é inconcebível associar as palavras “cegueira”, “cego” e “orgulho” na mesma frase.

Entre as muitas histórias que tive o privilégio de ouvir durante minhas aulas de tecnologia assistiva, destaca-se a história de dona Vilma, uma pessoa com deficiência visual, uma senhora com mais de 40 anos, que passou toda a sua vida em casa, sem nunca frequentar a escola, namorar, casar ou ter qualquer vida social. Sua família sentia vergonha de mostrar para a sociedade que Vilma era cega.

Quantas outras Vilmas existem no Brasil? Essa pergunta ecoa em minha mente.

Todos os dias, enfrento uma série de barreiras para ser aceito em uma sociedade despreparada e repleta de preconceitos.

Lembro com tristeza e revolta de quantas portas se fecharam para mim no mercado de trabalho. No entanto, sinto orgulho ao lembrar que não desisti e não desistirei. É terrível caminhar em cidades desprovidas de acessibilidade, ter que cair em buracos ou bater a cabeça em orelhões. Porém, sinto um imenso orgulho em ter a determinação para lutar contra a falta de acessibilidade e não permitir que os obstáculos me vençam.

É desafiador viver em um mundo onde a maioria das coisas não é projetada pensando naqueles que possuem alguma deficiência, especialmente para pessoas cegas. Mas sinto um orgulho imenso por todas as pessoas com deficiência que contribuíram para os avanços que já conquistamos.

Acredito firmemente que, quando sentimos orgulho de quem somos, afastamos completamente os sentimentos de vergonha e inferioridade. Tornamo-nos mais fortes, conscientes de nossos limites e das barreiras e dificuldades que enfrentamos, mas mantemos vivo o sentimento de orgulho por nossas potencialidades e conquistas.

Talvez, se eu pudesse voltar ao passado e dizer à religiosa que não posso ser curado e que tenho orgulho de ser quem eu sou, ela não entenderia e poderia pensar que além de cego, eu sou maluco. No entanto, não posso e nem pretendo voltar atrás. Em vez disso, gostaria de fomentar o pensamento de que:

Orgulho-me de ser quem sou, de superar os obstáculos diários e encontrar maneiras de ter uma vida plena. Reconheço que a cegueira faz parte de minha identidade, um aspecto que não me define por completo, mas que contribui para minha singularidade.

Quero que esse sentimento de orgulho seja um lembrete constante de que, mesmo diante das dificuldades, tenho o direito de garantir meu espaço com dignidade na sociedade.

É essencial que as pessoas compreendam que a cegueira não é uma deficiência que precisa ser curada ou um motivo para pena. É parte da diversidade humana, assim como tantas outras características e identidades. Ter orgulho de quem sou como pessoa cega é uma forma poderosa de afirmar minha dignidade e exigir respeito.

Por Francis Guimarães

Porto Alegre 16 de julho de 2023.

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