O capacitismo dói ainda mais quando afeta nossos filhos

A sociedade ainda tem um longo caminho a percorrer para se tornar menos capacitista. Existem pensamentos que, infelizmente, parecem estar enraizados em parte da população.

Algo que me causa profundo incômodo é ouvir frases como: “Que bom que sua filha enxerga, assim ela cuida de você.” “Sua filha tem a missão de cuidar da mamãe e do papai.” “A menina é seus olhos.” “Quando crescer mais um pouco, ela será responsável por vocês.”

Essas afirmações me irritam profundamente, mas o pior é que, ao tentar argumentar, muitas pessoas se mostram irredutíveis em suas opiniões. Então, passam a falar diretamente com minha filha, Ana Beatriz, de três anos:

— Sim, você tem que cuidar do papai e da mamãe. Você é os olhos do papai.

Isso é um absurdo. Além de violar completamente minha autonomia e independência, impõe a uma criança uma responsabilidade que não é dela e nunca será.

Recentemente, ouvi de uma religiosa a seguinte frase:

— Deve ser castigo. Se você não quer nem a ajuda da sua filha, é sinal de orgulho.

Não perdi meu tempo discutindo com essa pessoa, que se mostrou dogmática e de mente fechada, pois um diálogo naquela situação não traria resultado.

Não se trata de orgulho ou de não querer ajuda, mas de compreender que a responsabilidade de um pai, seja ele cego ou não, é cuidar de seu filho. A ideia de que nós, pessoas cegas, precisamos de ajuda o tempo todo é um grande equívoco. Cada pessoa é única, com suas potencialidades e limitações, mas, em geral, as pessoas cegas têm autonomia para realizar suas atividades. Essa percepção de que somos seres que necessitam de cuidados associa cegueira à doença, o que não corresponde à realidade.

É claro que, um dia, na velhice ou até antes, por alguma adversidade da vida, eu possa precisar dos cuidados da minha esposa, dos meus amigos e também da minha filha, assim como qualquer outra pessoa. Mas, no que diz respeito à minha filha, ela crescerá recebendo todos os cuidados necessários. Eu a medicarei quando estiver doente, a levarei ao médico, prepararei sua comida, trocarei suas fraldas, darei banho, ensinarei sobre o mundo e cumprirei todas as tarefas que me cabem como pai.

Além disso, precisarei conscientizá-la de que vivemos em um mundo que não foi construído para mim. Terei que explicar inúmeras vezes que ela não tem a responsabilidade que tantos insistem em lhe atribuir: cuidar de mim ou ser meus olhos.

Ela é e sempre será o grande amor da minha vida. Quando crescer, se formar, trabalhar, talvez se casar e seguir seu próprio caminho, encontrará em minha casa um lar acolhedor, com comida pronta e mesa posta. Ela compreenderá plenamente que seu pai possui limitações decorrentes da deficiência, mas que é plenamente capaz.

Ela saberá que seu pai sempre cuidou e sempre cuidará dela. E, quem sabe, um dia serei o avô que ajudará a cuidar dos netos.

Sigo firme, mas é difícil ouvir minha filha, ainda tão pequena, perguntar:

— Papai, por que eu tenho que cuidar de você?

Minha resposta é sempre a mesma:

— Você não precisa cuidar de mim. Eu sempre cuidarei de você. Algumas pessoas não conhecem nossa vida e acabam dizendo coisas sem sentido.

Situações como essa nos transformam aos poucos. Cada episódio de preconceito, cada julgamento precipitado e cada tentativa de diminuir nossa autonomia deixam marcas. Com o tempo, essas marcas mudam a forma como enxergamos a vida e nos obrigam a desenvolver uma força que talvez nunca tivéssemos precisado construir.

Ao refletir sobre minha jornada até aqui, chego à conclusão de que, ao nascermos, somos como pedras polidas, semelhantes ao quartzo-rosa ou à turmalina-negra. Temos em nossa essência a delicadeza e a beleza de uma pirâmide de ametista.

No entanto, à medida que o tempo passa e nos deparamos com a realidade, experimentamos a solidão, o abandono, as tristezas e as amarguras. É como se essa pedra polida fosse sendo devolvida à sua forma bruta. Cada frustração, decepção e perda torna essa pedra mais áspera, mas também mais resistente diante das turbulências da vida.

À medida que a pedra perde sua polidez, os tombos deixam de machucá-la tanto, e as quedas já não abalam sua estrutura. Talvez a pedra bruta não possua a mesma beleza ou não seja tão agradável aos olhos de quem a observa, mas carrega consigo sua própria beleza e seu próprio valor. Mesmo marcada pelo tempo e pelas dificuldades, sua essência continua brilhando.

Quando nos tornamos pedra bruta, desenvolvemos resistência diante das circunstâncias infelizes às quais somos submetidos. Em algum momento, em um tempo já distante, eu também fui uma pedra polida. Talvez o segredo da felicidade esteja em compreender esse processo e encontrar formas de caminhar com tranquilidade e resiliência pela jornada que, inevitavelmente, nos transforma em pedras brutas.

Francis Guimarães

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