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  • Vamos tomar um café?

    Quem não gosta daquele cafezinho, não é mesmo? Quase todos nós paramos para tomar um café e dar aquela relaxada. E convido você a viajar nesta leitura e experimentar um café diferente. Um café bebido diariamente por muitas pessoas, enquanto outras fingem que ele não existe. E há ainda uma parcela da sociedade que realmente desconhece sua existência.

    Lá estou eu, pensando nas diversas barreiras de acessibilidade e inclusão presentes em todas as esferas da sociedade. Reflexões bombardeiam minha cabeça e me fazem tentar criar estratégias para resolver conflitos que venho vivenciando. Leio artigos, livros, faço pesquisas, encontro muito conteúdo que fala sobre acessibilidade e sobre nossos direitos como pessoas com deficiência. Por alguns instantes, chego a me emocionar ao estar de frente para o arcabouço jurídico, lendo tantos artigos, incisos e belas redações que garantem direitos às pessoas com deficiência no Brasil.

    Ao mesmo tempo, desespero-me ao ver que quase nada do que está no papel conseguimos, de fato, colocar em prática. Mas, em busca de resiliência, tento desopilar. Visto meus calçados, pego o equipamento de trabalho da minha cão-guia e decido caminhar pela cidade. Chego à calçada e dou o comando para minha cão-guia, Una: “Em frente!” E lá vamos nós, caminhando rumo ao centro da cidade, com o objetivo de esquecer os conflitos que martelaram meus pensamentos durante todo o dia. Porém, logo ao percorrer algumas quadras, chegamos a um cruzamento extremamente perigoso. Tateio, encontro o poste, encontro a botoeira no semáforo sonoro e pressiono o botão. Mas o sinal sonoro está desativado. Preciso esperar que alguém me ajude a atravessar a avenida ou confiar na minha audição e arriscar a travessia.

    Com minha habilidade auditiva, atravesso a avenida e sigo em frente, agora tentando esquecer não apenas os pensamentos anteriores, mas também o maldito sinal sonoro desligado. Após percorrer um longo caminho, já voltando para casa, resolvo entrar em uma cafeteria e tomar aquele cafezinho para relaxar. Entro na cafeteria e vou até o balcão:

    — Boa tarde!

    Um senhor, com a voz desconfiada, responde:

    — Boa tarde!

    — O senhor poderia me conduzir até uma mesa?

    Ouço a resposta:

    — Cachorro não pode entrar aqui.

    — Senhor, não se trata de um simples cachorro. Ele é um cão-guia, eu sou cego e este cão é treinado. Existe uma legislação que garante meu acesso.

    O homem responde:

    — Mas não posso aceitar. Ele vai sujar o restaurante. Vou colocar uma mesinha para você lá fora, na rua.

    Novamente argumento, agora um pouco mais impaciente:

    — Não, senhor. Não sentarei na rua, vou sentar aqui dentro. Já lhe expliquei que é lei, e o senhor tem que respeitá-la.

    Dou o comando para meu cão-guia encontrar um assento. Encontro a mesa, sento-me e fico com o braço erguido, sinalizando que preciso de atendimento. Ouço o homem conversar com uma mulher, que lhe explica que sim, eu poderia ficar ali. Ela diz ao homem:

    — Ele pode ficar. Este é um cachorro especial, que carrega os ceguinhos de um lado para o outro.

    Apesar de ser reduzido a um “ceguinho”, e do conceito um pouco deturpado sobre o cão-guia, ao menos aquela mulher sabia da existência de um cão-guia. Ela chega até a minha mesa:

    — Meu querido, perdoe o mal-entendido. O que deseja?

    — Um café preto e um pão de queijo, por favor.

    Depois de algum tempo, ouço o “track track” da colher mexendo algo que se aproximava de mim. Eu imaginei que poderia ser o café, mas não quis acreditar, já que eu não bebo café doce. Ela me traz o pão de queijo e o café, avisando que o cafezinho e o pãozinho estavam muito quentes, falando comigo como se fala com uma criancinha. Quando provo, percebo que o café está extremamente doce. Novamente levanto a mão e explico à senhora que meu café é sem açúcar. Ela insiste que eu beba, dizendo que adoçou com muito carinho e que não poderia trocar o café, pois ela está acostumada a fazer assim para outro cego que frequenta o estabelecimento.

    Neste momento, meu desejo já não era mais esquecer nada, nem mesmo tomar o café, mas sim ser abduzido por uma nave espacial que me levasse para uma dimensão de seres mais esclarecidos, onde o capacitismo fosse menos presente. Esse café doce, repugnantemente doce, representa muito mais do que um simples café adoçado. Esse café fala sobre o despreparo da sociedade diante das adversidades da vida. É a prova de que nós, pessoas com deficiência, ainda somos muito desrespeitados, inclusive em nosso direito de escolha. Muitas vezes, nem sequer somos vistos como consumidores.

    Talvez aquela xícara de café tenha representado, naquele momento, a gota d’água que faltava para transbordar meu mar de indignação. O café doce, somado à solicitação da senhora para que eu o tomasse mesmo estando doce, é a sociedade nos dizendo: aceite o sinal sonoro desligado, aceite o descumprimento da Lei Brasileira de Inclusão, rasgue a lei que dispõe sobre o cão-guia. Aquele café representa a resistência das pessoas em implementar acessibilidade em seus produtos, sejam eles físicos ou digitais. Porque de um café doce, não temos como tirar o açúcar, diferentemente do café amargo, que está em nossas mãos adoçar ou não.

    Quando ouvi daquela senhora: “Beba, adocei com muito carinho, como faço para outro cego que vem aqui”, foi o claro eco de uma grande parcela da sociedade que diz: “Cegos, vocês são todos iguais!” E sim, a sociedade insiste em dizer isso. Desde que me mudei para Criciúma-SC, já perdi a conta de quantas vezes fui chamado de Valentim, que é outra pessoa cega que caminha pela cidade. Um homem totalmente diferente de mim, mas que para muitos somos a mesma pessoa, porque não nos enxergam, enxergam apenas a nossa deficiência.

    Esse café também representa a Lei de Cotas, que existe, mas inclui pouca gente. E os poucos que são incluídos acabam por engolir o café doce, em situações muitas vezes adversas a tudo aquilo que está na lei. Muitos de nós nos tornamos meros preenchimentos de cotas. Na cafeteria da vida, o justo seria que todos nós pudéssemos escolher como beberíamos o nosso café, mas a vida não é justa, e as leis não são cumpridas. Se essa senhora que serve o café fosse uma construtora civil, seria daquelas que deixa a calçada e a faixa onde passam os carros na mesma altura, impossibilitando que as pessoas cegas se localizassem. Se ela fosse uma desenvolvedora de software, seu código seria sem semântica, sem descrição de imagem, totalmente desordenado, com fundo e letras claras, tornando péssima a experiência de uso para pessoas cegas e com baixa visão. Se essa senhora entrasse para a vida pública, seria daquelas que diz que pessoas com deficiência atrapalham, que pessoas com deficiência não têm vez.

    Depois de eu dizer que não tomaria o café, que se ela não trocasse, eu não pagaria por ele, e que falasse comigo como se fala com um adulto, não como se eu fosse uma criancinha, eu disse: chega de cafezinho, xicrinha e pãozinho, eu quero beber um café amargo. E eu não sou igual a ninguém. Meu nome é Francis Guimarães, e meu café é amargo, muito amargo e muito quente. Ela trocou o café, extremamente contrariada, e eu tomei aquele café muito desconfiado, pensando que ela poderia ter cuspido ou colocado alguns pentelhos na minha xícara. Fui até o caixa para pagar a conta, mas, chegando lá, a máquina era de touchscreen. Era a maior prova de que o universo tenta constantemente testar minha paciência.

    Cada vez que me deparo com uma máquina de cartão touchscreen, é como se eu ouvisse: “Por ser uma pessoa cega, você não tem direito ao sigilo das suas senhas. Você, por ser uma pessoa cega, não é consumidor. Você, por ser uma pessoa cega, não tem direito à autonomia e liberdade.” É essa a mensagem que essas máquinas nos apresentam se pensarmos no que representa ter que falar nossa senha para outra pessoa.

    Felizmente, eu tinha um cartão de crédito com pagamento por aproximação. Paguei a conta e voltei quase correndo para casa, mas com os pensamentos martelando ainda mais forte. O que é preciso fazer para virar este jogo?

    Reconheço e sou grato pela luta de muitas pessoas em prol da acessibilidade, inclusão e no combate ao capacitismo. Mas até quando beberemos doses desse repugnante café doce?

    Existe uma pergunta que constantemente faço a mim mesmo: o que estou fazendo para mudar o mundo, para mudar essa realidade tão cruel?

    Às vezes, não encontro de forma clara a resposta.

    E você? Já se perguntou qual café está bebendo e, principalmente, qual café tem servido?

    Francis Guimarães

  • Tecnologia para autonomia

    Em uma manhã de inverno de 2013, eu estava deitado no meu quarto, navegando pela internet com meu smartphone. Foi então que me deparei com uma matéria sobre um aplicativo que prometia descrever imagens para pessoas cegas. O nome do aplicativo era TapTapSee.

    Ainda deitado, tomado pela curiosidade e pela esperança, baixei o aplicativo. Tirei uma foto direcionada para a porta do meu quarto e, logo em seguida, ouvi o leitor de telas dizer: “Porta branca de madeira com alguns adesivos coloridos”. Para mim, aquele foi um momento de intensa alegria. Não apenas pelo que o aplicativo era capaz de fazer, mas também pela visão de novos tempos que pareciam se desenhar diante de mim.

    O tempo passou, e diversos outros recursos surgiram, muitos deles com funcionalidades ainda mais avançadas e impactantes do que o TapTapSee. Hoje, desfrutamos de ferramentas incríveis, como o Be My Eyes, que combina inteligência artificial com a conexão entre pessoas cegas e voluntários. Temos também o Seeing AI, com suas múltiplas aplicações, além dos avanços contínuos nos leitores de tela, que proporcionam um acesso cada vez mais amplo ao mundo digital.

    Mas naquela manhã de inverno de 2013, fiquei pensando nas inúmeras possibilidades que o avanço tecnológico poderia oferecer para todos nós, seres humanos, e especialmente para nós, pessoas com deficiência. No meu caso, como pessoa cega.

    É incontestável que a falta de visão traz uma série de limitações no acesso às informações. No entanto, vejo a tecnologia como uma ferramenta capaz de minimizar essas limitações de maneira significativa, quase eliminando-as por completo. Esses avanços não são apenas soluções técnicas; são portas abertas para um mundo mais acessível e inclusivo.

    Semana passada, tive acesso a um recurso que me chamou muita atenção e me fez refletir sobre o quão incrível será o futuro com a utilização da inteligência artificial.

    Experimentei o recurso de visão por inteligência artificial do ChatGPT, disponível para assinantes, e também explorei a visão artificial do Gemini, da Google, acessível gratuitamente. Essa tecnologia representa um marco, trazendo novas formas de interagirmos com o ambiente e com os objetos ao nosso redor.

    Embora essas ferramentas não tenham sido desenvolvidas especificamente para pessoas cegas ou com baixa visão, elas oferecem suporte valioso em tarefas cotidianas, ampliando nossa autonomia e nossas possibilidades de acesso.

    Neste momento em que a visão artificial começa a nascer, vemos a acessibilidade, a inclusão e a inovação caminhando juntas. Um amplo leque de oportunidades está sendo construído, desenhando, aos poucos, um futuro muito mais acessível.

    Minhas expectativas em relação a essa tecnologia são tão grandes que gravei uma série de vídeos demonstrando a funcionalidade recém-lançada no ChatGPT. É importante destacar que essas ferramentas não têm como objetivo substituir técnicas tradicionais, como a bengala, o sistema Braille ou os leitores de tela. Pelo contrário, elas são um complemento poderoso, permitindo acesso a informações que antes considerávamos inalcançáveis.

    Por exemplo, por mais de 30 anos, configurar a BIOS de um computador era uma tarefa impossível para uma pessoa cega, devido à ausência de suporte para leitores de tela. Dependíamos sempre da ajuda de alguém que enxergasse. Agora, com a visão artificial, esse cenário está mudando. Essa tecnologia descreve a tela e a posição do cursor, permitindo que pessoas cegas configurem a BIOS de forma independente.

    Pensem no impacto disso: quantas telas inacessíveis agora podem ser compreendidas! É fundamental, no entanto, ressaltar que esse recurso não elimina a necessidade de desenvolver sistemas acessíveis seguindo boas práticas. Ele preenche uma lacuna, oferecendo acesso a informações que antes estavam fora do nosso alcance.

    Mas essa inovação vai além das questões técnicas. Ela transforma a forma como interagimos com o mundo ao nosso redor. Imagine pessoas cegas que vivem sozinhas ou em famílias onde todos têm deficiência visual. O quão revolucionário é poder identificar as cores das roupas, os padrões dos tecidos, detectar mofo no teto, perceber bolor em alimentos ou ler painéis de eletrodomésticos? E isso sem mencionar as inúmeras outras situações do cotidiano que agora podem ser resolvidas com autonomia.

    A tecnologia é, acima de tudo, uma ferramenta para melhorar nossas vidas. E, para nós, pessoas cegas, cada avanço como este é mais do que uma inovação: é um passo significativo rumo a uma maior qualidade de vida.

    Se pensarmos na área da saúde, a importância da visão artificial se torna ainda mais evidente. Imagine uma pessoa cega com um machucado que deseja saber a coloração da ferida. Está avermelhada? Há manchas ao redor? São informações fundamentais.

    Trago um exemplo pessoal. Tenho uma patologia intestinal que, em algumas situações, causa perda de sangue nas fezes. Diversas vezes, precisei tirar fotos e enviá-las a familiares que, a contragosto, descreviam para mim o que viam. Com a visão artificial mais aprimorada, acredito que poderei simplesmente apontar a câmera do meu telefone para o vaso sanitário e receber uma descrição precisa da coloração e de possíveis indícios de sangue.

    Para pessoas diabéticas que utilizam insulina, a visão artificial também será revolucionária. Poder ler o display do aparelho de glicemia ou verificar a quantidade exata de insulina na seringa será um grande avanço. Conheço muitas pessoas cegas que, por falta de acesso a essas informações, aplicam insulina de forma desregulada. Meu pai, por exemplo, passou mais de 20 anos confiando apenas na percepção tátil para medir a insulina, sem poder verificar com precisão se havia bolhas de ar ou a quantidade correta de medicamento na seringa.

    Esses exemplos sintetizam o potencial transformador da tecnologia e o impacto que a visão artificial já tem e terá cada vez mais, à medida que evolui. Sou convicto de que a inteligência artificial mudará a vida daqueles que souberem compreender e aproveitar suas funcionalidades.

    Ainda há muito a ser desenvolvido, mas os primeiros passos para esse novo tempo já foram dados. A visão artificial não faz com que nós, cegos, enxerguemos, mas nos permite compreender e interagir com o mundo ao nosso redor de maneiras antes inimagináveis.

    Francis Guimarães

  • A vida muda o nosso olhar

    Se pudéssemos voltar ao passado com a visão de mundo, as experiências e o conhecimento que temos hoje, como teríamos vivido? Quem seríamos agora?

    Nas minhas noites intermináveis de insônia, mergulho em um turbilhão de pensamentos e me pego refletindo sobre as grandes transformações internas que ocorreram ao longo do tempo. Penso nas prioridades que já não são as mesmas de dez anos atrás e nas ilusões que carregava há 15 ou 20 anos.

    Hoje, sei que o mundo não é tão belo quanto eu imaginava. Descobri que os verdadeiros amigos são mais raros do que supunha e que tristezas e angústias fazem parte da condição humana.

    Com o passar do tempo, entendi que os sorrisos são valiosos, mas que as lágrimas, por mais dolorosas que sejam, também têm um propósito. Elas nos ensinam a ser mais fortes.

    Se pudesse voltar ao passado, teria valorizado mais aqueles que realmente me amaram e me deram valor, pessoas que, muitas vezes, não percebi em sua total importância. Ouviria com mais atenção os conselhos daqueles que hoje vivem apenas na minha memória e aplicaria suas lições na minha vida. Compreenderia que os tapinhas nas costas e as falsas risadas não tinham valor real.

    Talvez tivesse pensado mais em mim mesmo. Teria cultivado mais amor-próprio, cuidado melhor de quem sou. Talvez hoje fosse uma versão melhor de mim, estivesse em lugares ainda não alcançados e carregasse menos feridas para tratar.

    Mas acredito que tudo isso faz parte do nosso processo evolutivo. Tudo tem seu tempo.

    Lembro-me de uma frase do pensador Arthur Schopenhauer, que ouvi há dez anos e à qual me opus veementemente: “A vida é dor e sofrimento.” Curioso como hoje compreendo o significado dessa reflexão. Cabe a nós fazer a nossa parte, colorir os dias com a máxima tranquilidade e alegria, aprendendo a viver e conviver com as dores e os desafios, sendo o mais resiliente possível.

    Hoje, ao olhar para minha história, consigo enxergar meus tropeços e minhas fraquezas. Tento ser melhor, não apenas para mim, mas também para minha família, minha esposa e minha filha.

    E então me pergunto:

    Quem serei daqui a 10, 20 ou 30 anos?

    Será que, olhando para trás, enxergarei erros que hoje ainda não consigo ver?

    Darei mais valor às coisas que hoje não reconheço como preciosas?

    Quem me tornarei a partir da história que estou construindo agora?

    Francis Guimarães

  • Existem enchentes que não são sobre as águas

    Existem enchentes que não são sobre as águas

    Nesta madrugada, mais uma vez, a insônia, tão presente em minha vida, acompanhada por muitos pensamentos e sentimentos, vem acompanhada. Busco dentro de mim respostas para tantas inquietações, deparo-me analisando o meu dia e percebo que o sono não virá nesta madrugada quente, bombardeada por tantos pensamentos.

    Hoje foi um dia agitado. Mal consegui parar para responder às mensagens do WhatsApp, mas, ainda assim, dediquei um tempo para assistir a uma série de documentários no YouTube que contam as histórias das enchentes que atingiram o estado do Rio Grande do Sul.

    Depois desses documentários e com tantos pensamentos, seria ainda mais difícil encontrar, em algum canto dentro de mim, o tão procurado sono.

    É triste demais lembrar da enchente no estado que tanto amo. O estado onde nasci, onde muito sonhei e realizei alguns sonhos. O estado onde nasceu minha filha. O lugar onde vivi grande parte da minha existência.

    Ouvindo os documentários sobre um desastre tão recente e tão presente em minha realidade, lembrei de toda a minha jornada e voltei ao dia 2 de maio de 2024, uma data que considero um marco em minha história.

    Embora a tristeza gerada por essas catástrofes seja imensa, acredito que, de uma forma ou de outra, tudo pode ser superado.

    Ao ouvir os depoimentos nos documentários, percebi que quase todos destacavam a importância da boa vontade das pessoas, aquelas que dedicaram seu tempo para ajudar e salvar quem mais necessitava, principalmente os que estavam na linha de frente. E, claro, se sobressaíram aqueles que tinham um barco para realizar os resgates, levando os atingidos pela enchente aos abrigos, onde poderiam iniciar uma nova fase: a fase da reconstrução.

    No dia 3 de maio de 2024, eu estava sentado, trabalhando em meu quarto, ouvindo o barulho da chuva incessante, e algo dentro de mim dizia que aquele não era um dia comum.

    O relógio marcava por volta das 17h, e a chuva não dava trégua. As emissoras de rádio noticiavam que diversos lugares já enfrentavam situação de enchente e que as autoridades estavam evacuando vários bairros em diferentes cidades. Eu morava no centro de uma das cidades mais atingidas pela catástrofe, Canoas.

    O despertador avisava que era hora de buscar minha filha de três anos na escola. Peguei minha bengala e meu guarda-chuva, desci do prédio e tentei chamar um Uber, mas não havia carros disponíveis. Sem alternativa, caminhei quatro quadras sob a chuva intensa até chegar à escola dela.

    A cidade estava tomada por um caos diferente do habitual. O barulho era estranho, as pessoas pareciam diferentes, e o clima não era o mesmo de uma chuva comum. Havia algo no ar que transmitia inquietação e medo.

    Cheguei à escola, mas a chuva continuava forte. Conseguimos um Uber até uma padaria, onde esperamos mais de duas horas que a chuva diminuísse. Durante o trajeto, o motorista nos informou que grande parte da cidade já estava com pontos de enchente.

    Cheguei ao meu prédio, entrei e me dirigi ao meu apartamento, no quarto andar. Era por volta das 21h, e a chuva seguia intensa, após dias de precipitação contínua.

    Sentado à mesa, ouvi o som de uma forte explosão e, logo depois, a energia acabou. Pensei que fosse apenas uma queda de energia causada pela tempestade.

    Abri uma garrafa de vinho e sentei-me à janela, que dava de frente para a avenida principal. Ao longe, eu ouvia o som das sirenes de polícia e bombeiros, misturado ao barulho da chuva, que parecia compor uma melodia melancólica, o fundo sonoro de uma cidade mergulhada no caos.

    Depois de quase duas garrafas de vinho, a luz não havia voltado, e o sono também parecia distante. Cercado pelos zumbidos e picadas de mosquitos, ouvi na rua, abaixo do meu prédio, o som inconfundível de um caminhão.

    Talvez vocês não compreendam, mas tenho a certeza de que o som daquele caminhão jamais sairá da minha memória.

    Era um caminhão trazendo pessoas resgatadas da enchente, vindas dos bairros Harmonia e Mathias Velho.

    Em meio ao barulho do trânsito, das sirenes e da chuva incessante, o som que mais se destacava era o choro e os lamentos das pessoas que haviam perdido tudo.

    Eram 3h da manhã. O fluxo de caminhões que chegavam era intenso. Um abrigo para os resgatados da enchente havia sido montado ao lado da minha casa, no Clube Canoense.

    Lá de dentro do meu apartamento, eu ouvia todo aquele caos acontecendo lá embaixo. Sentia-me tão pequeno e impotente diante daquela realidade. Entre um gole e outro de vinho, rezava para que as águas não avançassem mais e para que todas as pessoas pudessem sair daquela triste situação com vida.

    Extremamente inquieto e tomado pela sensação de impotência, fui surpreendido pelo som insistente de um grito vindo da rua. Era um grito de desespero, que imediatamente capturou minha atenção. Não sabia explicar, mas aquele som me incomodava profundamente e despertava em mim um desejo intenso de ajudar de alguma forma.

    Desci do prédio e caminhei em meio às pessoas, seguindo o som daquele grito que parecia ecoar em todo o caos. Ao me aproximar, perguntei por que aquela pessoa estava gritando. Fui informado que se tratava de uma pessoa autista, em pânico pelo resgate. Não havia uma cama disponível naquele momento para acomodá-la, e isso agravava sua crise.

    A cena diante de mim parecia um cenário de guerra, com pessoas perdendo tudo, gritos de sofrimento, e uma confusão generalizada tomando conta da avenida.

    Decidi descer com o pouco que tinha para doar. Peguei um colchão e algumas cobertas e desci os quatro andares do prédio, na esperança de proporcionar o mínimo de conforto para alguém que estivesse precisando.

    É impossível esquecer aquele clima de tanto sofrimento, em meio às pessoas que haviam perdido tudo. Era uma noite que parecia interminável, repleta de angústia e dor, mas também de pequenos gestos de solidariedade que, de alguma forma, iluminavam a escuridão daquele momento.

    Às 5h da manhã do dia 3 de maio, recebi um telefonema da minha mãe, comunicando que sua casa, na cidade de São Leopoldo, estava completamente submersa. Lamentei as perdas materiais, mas agradeci profundamente por ela e todos os nossos entes queridos estarem bem.

    Ainda naquela madrugada, da janela do meu apartamento, ouvindo os tantos choros e as inúmeras tristezas, minha mente não parava. Eu pensava muito em como estariam as pessoas que viviam nas áreas mais afetadas e que, assim como eu, tinham uma deficiência. Como estariam as pessoas cegas enfrentando essa situação? E se a água chegasse até o meu prédio? Como eu conseguiria sair dali com minha filha e minha esposa?

    Esses pensamentos me assombravam, e eu desejava desesperadamente poder fazer algo por aquelas pessoas. Porém, diante de uma situação tão grande e cruel, eu me sentia pequeno e impotente.

    Hoje, ao ouvir os documentários disponíveis no YouTube, ampliou-se a minha certeza que houve muitas falhas por parte dos governos federal, estadual e municipal, especialmente nos resgates e na organização dos abrigos.

    Ao mesmo tempo, é emocionante ouvir os relatos dos voluntários, que nos trazem a esperança de que o mundo ainda tem solução. É belo ouvir tantas histórias de pessoas que deram o seu máximo para salvar vidas, arriscando suas próprias vidas para garantir a sobrevivência de outros.

    Por outro lado, é repugnante saber que houve pessoas que aproveitaram uma situação tão horrível para tirar proveito, revelando o lado mais sombrio da humanidade em meio à tragédia.

    Durante o período da enchente, enquanto morava no Rio Grande do Sul, visitei diversos abrigos e espaços de acolhimento. Apesar de ter oferecido tão pouco para aqueles que tanto precisavam, o sentimento de querer fazer mais me marcou profundamente. Essas vivências ficaram gravadas em minha memória como um lembrete da importância de ajudar, mesmo quando parece pouco diante da enormidade da necessidade.

    Mas toda essa terrível experiência me levou a uma profunda e complexa reflexão.

    Durante mais de 10 anos da minha vida, trabalhei diretamente em centros de habilitação e reabilitação para pessoas cegas e com baixa visão.

    Esse trabalho, que desenvolvi de forma profissional para garantir o meu sustento, também foi conduzido com muita responsabilidade e afeto em todas as minhas ações. Sempre acreditei que o afeto, de forma alguma, apresenta divergência com o profissionalismo de alguém. Pelo contrário, o afeto é o toque especial, o ingrediente que pode levar um profissional à excelência na atividade que desempenha.

    No entanto, a minha jornada nessa área, onde eu me sentia tão relevante para as pessoas que atendia, chegou ao fim. Novos horizontes e tempos precisaram ser explorados e descobertos na minha história.

    Mas, dentre as muitas coisas que aprendi nessa área em que atuei durante tantos anos, é que, para muitas pessoas que perdem a visão, essa nova realidade é como uma tragédia, comparável a uma enchente interna. Elas se sentem como se estivessem à deriva, aguardando um resgate, um caminho para trilhar e reconstruir suas vidas.

    E os profissionais que realizam o trabalho de reabilitação são como resgatantes. Suas habilidades, didáticas e metodologias são os barcos e os remos que ajudam essas pessoas a atravessar as águas turbulentas dessa nova realidade. Em alguns casos, esses profissionais são como barcos motorizados, que agilizam e facilitam ainda mais o percurso até que essas pessoas cheguem a um ponto seguro, onde possam seguir em frente com segurança e autonomia.

    Para muitos, essa comparação pode parecer absurda, mas durante todo o tempo em que acompanhei pessoas que haviam ficado cegas recentemente e estavam ingressando nos programas de reabilitação, posso afirmar com convicção que essa comparação não é uma tolice. Ela traduz, de forma simbólica, a complexidade e a profundidade do processo de reconstrução que essas pessoas enfrentam.

    Mas, ao ouvir os documentários e ficar claro que o Estado não cumpriu o seu papel da forma como deveria, bem como notar que, no meio das equipes de resgate, havia aqueles que estavam mais preocupados em tirar selfies e fingir que estavam ajudando, fiquei profundamente reflexivo. Parece que, de alguma forma, todas as realidades se encontram.

    Pois, assim como na enchente, nos serviços de habilitação e reabilitação de pessoas cegas e com baixa visão, assim como na vida de forma geral, existem aqueles que dizem querer fazer algo por alguém, mas será que realmente querem fazer ou estão, de fato, fazendo algo significativo?

    Será que, nas entidades de habilitação e reabilitação, todos os profissionais contratados para exercer esses cargos estão verdadeiramente remando na direção de um lugar onde as pessoas se sintam seguras e libertas dos barcos que as mantêm acorrentadas na eterna enchente do desconhecimento de suas próprias potencialidades?

    Será que tantas selfies e fotos não servem apenas para transformar quem está ou se considera em uma “enchente” em meras manchetes de publicações?

    Será que todos os locais que dizem habilitar e reabilitar pessoas cegas realmente mostram que há um recomeço, longe da “enchente-prisão” da dependência, do assistencialismo e da caridade?

    Será que todas essas entidades conseguem demonstrar que, logo ali em frente, existe, sim, um mundo melhor, um mundo de autonomia, dignidade e possibilidades reais?

    As perguntas aqui deixadas ficam a cargo de cada um dos meus leitores refletirem sobre as respostas.

    Tenho o desejo de remar e ajudar aqueles que ainda não sabem manejar seus remos, mas minha impotência, tanto na enchente quanto em outras esferas da vida, é muitas vezes grande demais.

    Às vezes, queremos remar, mas alguém atira contra o nosso barco. Tentamos nadar, mas nos cansamos, retornamos à superfície e, em muitos momentos, acabamos desistindo.

    Na vida, os homens não apenas afundam barcos, mas também fazem de tudo para podar as árvores que oferecem sombra.

    Francis Guimarães

  • A vida e seus pactos de silêncio

    A vida e seus pactos de silêncio

    Caros leitores, já pararam para pensar quantos pactos de silêncio vocês firmaram ao longo da vida?

    Pode parecer uma pergunta estranha, talvez sem sentido para alguns, mas garanto que não é.

    Desde pequenos, somos condicionados a nos calarmos diante de diversas situações. Seja por educação, por constrangimento, por receio de magoar alguém ou simplesmente por acreditar que dizer o que pensamos nem sempre é adequado ou aceitável.

    Muitos de nós, talvez a maioria, aprendemos que não devemos reclamar da comida no restaurante, mesmo quando ela está ruim. Aprendemos a pagar os 10% do garçom, mesmo quando não queremos ou não temos condição de pagar, simplesmente para manter a etiqueta.

    E assim seguimos silenciando. Presenciamos injustiças e crueldades e nos mantemos fiéis a esses pactos de silêncio.

    Quando os sentimentos de carinho e amor entram em jogo, esses pactos tornam-se ainda mais rigorosos. Não podemos dizer a verdade àqueles que amamos, pois falar para minha mãe que sua comida está ruim seria uma catástrofe; magoaria seus sentimentos. Apontar os erros de meu pai seria visto como desrespeito, um desacato aos muitos pactos de silêncio que a sociedade hipócrita nos obriga a assinar.

    Como diria Raul Seixas: “Todo mundo tem que reclamar”.

    Eu entendo que todos nós temos muito do que reclamar e que, principalmente, nós, pessoas cegas, devemos romper alguns desses pactos de silêncio. O mundo só será melhor quando nossas verdades forem ouvidas.

    A acessibilidade nas cidades brasileiras, em sua grande maioria, é inexistente. No entanto, muitos de nós não falamos nada para não nos expormos diante de políticos que podem nos prejudicar ou mesmo retaliar instituições. Nos calamos diante dos crimes de discriminação e do capacitismo que ocorrem contra estudantes com deficiência dentro das escolas “inclusivas”. No mundo do trabalho, também não é diferente: ficamos em silêncio e fingimos não ver que grande parte das pessoas com deficiência não está verdadeiramente incluída.

    Até mesmo nas entidades que nos representam, onde nossas vozes deveriam ser sempre ouvidas, respeitadas e valorizadas, o silêncio se impõe. Talvez seja ainda pior, pois aprendemos que devemos nos calar em gratidão pelo que fazem por nós, mesmo quando esse “fazer” não passa de mero assistencialismo.

    Assim, esses pactos de silêncio tornam-se comuns, naturais. Passamos a aceitar tudo calados, pois reclamar é visto como algo feio, chato, deselegante. Alguém sempre vai se incomodar com quem reclama.

    No caso das pessoas com deficiência, muitos de nós nos acostumamos a viver com aquilo que nos é oferecido, com a clareza de que, além de o mundo não ser pensado para nós, uma parcela considerável da sociedade também não quer nos ouvir.

    Nos acostumamos a todas as barreiras e à falta de acesso. Seja a barreira arquitetônica, como o velho orelhão na esquina no qual batemos a cabeça, mas não reclamamos porque “ele está ali para ajudar quem precisa”. Seja a barreira atitudinal, como a tia Vilma, que em todo churrasco de família repete as mesmas piadas sobre cegos, e não falamos nada porque “todos adoram a tia Vilma” e “ela já está velha para aprender”.

    Ou ainda a barreira digital, como o aplicativo do banco Vendaval, totalmente inacessível. Mas não posso criticá-lo, pois todos os meus amigos e familiares enxergam e adoram sua interface.

    Não precisamos ir longe. Dentro de nossas próprias casas, com nossas próprias famílias, esses pactos de silêncio são firmados. Quantas vezes bati a canela em uma cadeira fora do lugar, mas não reclamei para não parecer chato ou para não magoar quem a deixou ali?

    A tecnologia evoluiu muito, mas em alguns pontos continuamos estagnados. Lembro-me de, quando criança, ver os excludentes álbuns de fotografia serem folheados em família nas tardes de domingo, momentos que antecediam a tortura do “Domingão do Faustão” com suas “Vídeos Cassetadas”. Todos admiravam as lembranças das fotos e, às vezes, alguém se lembrava do cego na sala e descrevia uma imagem. Mas, quase sempre, soltavam o clássico bordão: “Pena que você não pode ver esta foto, fulano”.

    Hoje, os álbuns de fotografia foram substituídos pelo Facebook e Instagram, e até a Rede Globo já exibe filmes com audiodescrição. Mas nossos pactos de silêncio continuam. Se as fotos nas redes sociais não têm descrição de imagem, voltamos àquela sala de domingo, onde todos podem ver suas fotos e lembrar suas histórias, menos nós, cegos. E, se reclamarmos, cometemos um crime contra esse documento social, esse pacto de silêncio, ferindo aqueles que “esqueceram” ou não quiseram descrever a imagem para nós.

    Quanto tempo ainda levaremos para evoluir e compreender o outro? Por que a tecnologia avança mais rápido do que nossos velhos costumes?

    E você, terá coragem de romper seus pactos de silêncio?

    Francis Guimarães

  • O Grito Preso na Garganta

    O grito preso na garganta.

    Um mundo tomado pelo câncer da ignorância.

    E para quem eu escrevo? Com quem eu gostaria de conseguir conversar através das minhas palavras escritas?

    Aos ignorantes, aos intelectuais, estudiosos, aos políticos, professores, médicos, motoristas de ônibus ou de aplicativo, donos de bares e restaurantes, boêmios, empresários, prostitutas…

    Com adultos, jovens, adolescentes, crianças…

    Talvez, em especial com as crianças, fosse preciso conversar, para tentar construir um mundo, quem sabe, um pouco diferente. Um mundo que, de fato, conseguisse respeitar a todos, sem ferir ninguém.

    Gostaria de conseguir ser ouvido e, principalmente, compreendido.

    Gostaria que minhas palavras escritas pudessem servir de inspiração para um grito que, acredito, esteja preso em muitas gargantas.

    Um grito que mostre que todos precisamos ser respeitados, assim como precisamos respeitar o outro.

    Mas é difícil soltar esse grito. É complexo.

    E, ao mesmo tempo, é angustiante.

    Como gritar? Onde gritar?

    Como tentar mudar minimamente isso que chamamos de sociedade?

    Será que existe quimioterapia para esse mal, ou já é tarde demais, restando apenas à sociedade sofrer até o fim?

    A história que hoje escrevo não é muito diferente das tantas outras que já escrevi.

    Afinal, trata-se do relato de uma cena que se repete comigo e com tantas outras pessoas com algum tipo de deficiência, pessoas que resolvem sair de suas casas, andar pelas ruas, trabalhar, estudar, viver como qualquer outra pessoa.

    Pessoas que não querem, de forma alguma, ser vistas como super-heróis nem como coitadas.

    Querem apenas ser reconhecidas como seres humanos, com suas individualidades, potencialidades e limites.

    Pessoas que querem apenas respeito.

    Mas, quando temos uma deficiência, no meu caso, a cegueira, talvez o simples fato de querer estar em qualquer ambiente e conviver com outras pessoas torne-se cansativo.

    E, para muitos de nós, chega um ponto em que nos sentimos exaustos e passamos a sair menos de casa, ou até mesmo deixamos de sair.

     

    Esse fenômeno é o que chamamos de “fadiga de acesso”, quando encontramos tantas barreiras que nos sentimos desgastados a ponto de cogitar desistir de sair.

    Mas aqui, neste texto, não falo da fadiga causada pela falta de acessibilidade arquitetônica, tecnológica ou comunicacional.

    Falo do cansaço de me sentir, tantas vezes, ferido e desrespeitado.

    Tenho muitos amigos cegos que são verdadeiros exemplos de resiliência.

    Aqueles que conseguem driblar as dificuldades sem esse sofrimento que, por vezes, torna-se tão latente para mim.

    Amigos que conseguem compreender, e até mesmo aceitar, que o desconhecimento, a ignorância e a maldade humana fazem parte do jogo da vida, e que é preciso saber jogar diante de tais questões, sem se abater, sem se ferir, sem se machucar.

    Mas eu, infelizmente, não consegui alcançar esse nível de maturidade, essa inteligência emocional.

    Consegui driblar tantas outras barreiras da deficiência, mas ainda existem pontos a serem tratados em um longo processo de terapia.

    Talvez eu até saiba jogar, talvez seja um bom jogador.

    Mas é o desrespeito que me coloca em xeque.

    Essa partida definitivamente não é para amadores.

    O jogo da vida exige mais do que estratégia.

    Exige paciência.

    Porque não é uma partida justa.

    Pelo contrário, é desigual.

    E, em muitos casos, já começamos perdendo desde o início do jogo.

    Chega a ser impressionante.

    Eu sou brasileiro e gosto do meu país.

    Mas, muitas vezes, me pego pesquisando sobre outros lugares e penso que talvez eu me sentiria mais respeitado em outro país.

    Que talvez a sociedade tivesse uma compreensão mais sólida sobre a deficiência.

    Um lugar onde eu pudesse simplesmente estar em paz.

    Pesquiso destinos e imagino morar em países onde a cultura da inclusão esteja mais consolidada.

    Quem sabe, na Alemanha.

    É triste. Porque parece que estou buscando uma fuga.

    Fugir da ignorância humana.

    Mas, às vezes, também penso que os problemas não se restringem ao Brasil.

    E que, talvez, de alguma forma, eu encontraria as mesmas dores no Japão, na Alemanha ou nos Estados Unidos.

    Aqui em Criciúma, SC, a vida anda testando todos os níveis da minha paciência.

    Vir morar em uma cidade mais afastada da capital teve seus pontos positivos, mas tornou esse jogo mais duro, com trapaças nas jogadas para as quais eu acho que não estava preparado.

    Hoje, ao entrar na agência do Banco do Brasil e tentar passar pela porta giratória, o guarda me disse:

    “Espere aí, vou chamar o gerente para ver como lhe atender. Nunca recebemos uma coisa assim aqui no banco.”

    Fui reduzido a menos que nada. Uma “coisa”.

    O gerente então liberou para que a “coisa” passasse pela porta, e saiu puxando-me pelo braço até o balcão de atendimento.

    E eu explicando para o homem, um gerente de banco, servidor público, que estudou, passou em um concurso, que aquela não era a forma correta de conduzir uma pessoa cega.

    Pedi de maneira firme que parasse, que soltasse meu braço, e disse que queria ensinar a forma certa: que eu deveria pegar no braço dele e ele caminhar à frente.

    Questionei como um gerente não tem o mínimo de treinamento para lidar com o público.

    O homem parecia não ouvir o que eu dizia.

    Só queria me explicar que eu tinha que caminhar “em cima do trilho”.

    Expliquei que o nome não era “trilho”, era piso tátil.

    Mas não adiantou. Parecia que o homem era surdo.

    Eu já estava de péssimo humor.

    Na hora de sair do banco, preferi nem esperar o auxílio.

    Fui batendo minha bengala até encontrar a porta e poder sair daquele banco, onde invisto meu dinheiro, para ser tratado como “coisa”.

    E fui seguindo o trilho, ou melhor, o piso tátil, que terminou em uma parede, sem me guiar a lugar algum.

    Eu já estava bastante chateado por causa da noite anterior.

    O dia anterior havia terminado mal, e este já começava da pior forma possível.

    Na noite anterior, havia ido a um local bastante agradável, onde sempre fui tratado com muito respeito e, até então, nunca havia passado por nenhuma situação desagradável.

    Mas pessoas desprovidas de bom senso estão em todos os espaços.

    E, nessa noite, foi isso que ocorreu.

    Uma pessoa babaca, tola, uma figura extremamente repugnante, resolveu que iria fazer de mim o bobo da corte.

    Comentava na mesa ao lado que duvidava que eu era cego, que isso era impossível:

    “Como um cego vai ao banheiro sozinho, mexe no celular e bebe cerveja?”

    Na primeira vez, eu ouvi e deixei para lá.

    Na segunda, ouvi, me senti desconfortável, mas também deixei passar.

    Na terceira, respondi. Disse que eu era cego sim, mas que isso não importava muito para ele. Que eu tinha as minhas formas, as minhas maneiras de fazer as coisas.

    Mas ele continuava com piadas, porque, para ele, eu realmente era o bobo da corte.

    “Onde já se viu, com que direito um ser cego sai de casa e caminha até o bar?”

    Claro, para ele, lugar de cego é em casa, sentado no sofá, ouvindo radinho de pilha.

    Para ele, cego não é gente, não tem sentimento, não sente frio, fome, dor.

    Também não tem raciocínio, não sabe o que é direita ou esquerda.

    Logo alguém vai dizer:

    “Ah, mas o sujeito estava embriagado, faz parte do jogo!”

    Eu não concordo com essa teoria.

    A bebida apenas potencializa o mal ou o bem que existe dentro de nós.

    A pessoa em questão não aceitava o fato de eu estar no bar. Começou a me testar.

    Fez uma pergunta, e eu fui responder, direcionado a ele.

    Apesar de cego, eu me direciono para as pessoas quando falo com elas.

    Ele deu a volta na mesa e parou do outro lado. Então disse:

    “Eu estou aqui, não estou aí.”

    Não apenas me reduziu a bobo da corte, mas tentou me ridicularizar ao máximo.

    Como quem vai ao zoológico e cutuca os gorilas para ver a reação da outra espécie.

    Porque, sim, para aquele sujeito, eu não sou da espécie dele.

    Sou um ceguinho que ousou sair de casa.

    Sou um coitado, que merece a piedade ou, no máximo, a admiração da espécie dele.

    Mas, acima de tudo, sou para ele uma figura folclórica, que serve de piada e deboche.

    Para ele, sou menos que um rato de laboratório.

    Alguém sem individualidade.

    Alguém que merece ser feito de trouxa, o palhaço do seu circo particular.

    E ele não precisa me respeitar, porque, para ele, cego não merece respeito.

    Mais lamentável ainda foi, depois de tudo, ele dizer que estava “só brincando”. Que estava admirado. Que, se ele não enxergasse, jamais conseguiria fazer o que eu faço.

    Que tudo aquilo era fruto da sua “admiração”.

    Ainda quis me abraçar e apertar minha mão.

    Com todo respeito, mas vá apertar a mão do demônio.

    Regressei para casa triste, chateado com a situação.

    Compreendendo que situações como essa não deveriam me afetar, mas também sabendo que não tenho total domínio sobre o que me afeta ou não.

    De tudo isso, o que mais me entristece é perceber que ainda evoluímos tão pouco nessas questões, que na verdade dizem respeito a algo básico, respeitar o outro.

    Nosso país conta com influenciadores digitais que falam sobre cegueira com muita propriedade, de forma bela, completa, abrindo suas vidas para conscientizar a sociedade sobre um tema tão importante.

    E, mesmo assim, seguimos encontrando em nosso caminho pessoas como aquele sujeito, uma verdadeira aberração.

    Por que será que a mídia não faz um trabalho sério para mudar essa realidade?

    Por que grandes veículos de comunicação não criam programas semanais sobre a realidade das pessoas com deficiência?

    Por que o reality show da Globo não chama uma pessoa cega para participar?

    Por que o Fantástico não convida influenciadores digitais cegos como Darley Oliveira, Geisa Farini ou Fernando Campos?

    Por que essas pessoas, que fazem um trabalho tão relevante, não estão em rede nacional?

    Por que não se divulga amplamente que Lucas Radaelli, um cego brasileiro, é engenheiro de software na Google e uma referência mundial?

    Por que não é falado, lembrado e ensinado nas escolas que o doutor Tadeo Marques da Fonseca é um juiz cego do TRT da nona região?

    E os nossos campeões do esporte paralímpico?

    Por que Ricardinho Alves, o melhor jogador de futebol de cegos do mundo, aparece tão pouco na Globo, no SBT, na Band ou na Record?

    Se divulgássemos mais a nossa realidade, talvez encontrássemos menos pessoas tão escrotas quanto aquele cidadão do bar.

    Mas acho importante dizer que também entendo que, em muitos casos, a culpa recai sobre algumas entidades de pessoas cegas, que fazem um trabalho péssimo.

    Como aqui em Criciúma, onde colocam uma pessoa cega para pedir de porta em porta, mas não vão às escolas, comércios ou órgãos públicos para falar sobre as capacidades das pessoas cegas e com baixa visão.

    É uma cidade que não oferece aulas de informática, Braille e nem mesmo orientação e mobilidade para cegos.

    Não existem setores que discutam o capacitismo.

    A culpa não é só da instituição.

    É de toda uma construção social.

    Da inclusão que não existe.

    Da forma equivocada com que o tema da deficiência é abordado em sala de aula.

    Das dinâmicas sensoriais mal elaboradas, que mais aterrorizam do que ensinam, e acabam por reforçar uma percepção ainda pior sobre nós.

    Dinâmicas em que se vendam pessoas sem deficiência, sem explicar que isso não é o mesmo que ser cego, sem sequer mencionar a existência da neuroplasticidade cerebral.

    E se nos aprofundarmos nesse tema, veremos que as falhas muitas vezes se iniciam dentro das próprias instituições de cegos.

    Esses dias fui a uma reunião em que uma profissional vidente, que atuava como professora em uma associação de cegos, disse entre risadas que caminhava “pé por pé” para tentar sacanear o presidente da instituição, que é cego.

    Isso comprova que os palermas estão em todos os espaços.

    Mas a culpa também é de um país que oferece uma habilitação e reabilitação extremamente precária para pessoas cegas, especialmente nas cidades do interior.

    E o resultado disso tudo?

    Mesmo quando temos dinheiro, trabalho, autonomia e mobilidade, muitos de nós escolhemos não sair de casa.

    Vamos nos isolando. Trabalhamos e voltamos direto para casa.

    Para aqueles que, assim como eu, trabalham em casa, o isolamento social pode ser ainda maior.

    Queremos fugir de uma realidade tão cruel.

    E muitas vezes, isso resulta em doenças psicológicas.

    Sempre gostei de sair de casa. Sempre adorei estar em um restaurante ou em uma mesa de bar.

    No passado, já pensei que, se o céu existisse, seria uma mesa de bar cheia de amigos.

    Hoje, acho que o bar pode ser o céu em algumas situações e o inferno em outras.

    Ontem, arrependi-me amargamente de ter saído do conforto e da proteção do meu lar.

    É profundamente lamentável ter a clareza de que pessoas como aquele asno da mesa do bar estão por toda parte.

    São gerentes de banco, motoristas, advogados, médicos, professores e até funcionários de associações de cegos.

    E muitos desses têm filhos, os jumentinhos, que vão crescendo e se tornando grandes jumentos, iguais aos pais.

    Crianças que, muitas vezes, também são cruéis.

    Fazem bullying, são preconceituosas, racistas, capacitistas, mas dizem que “é só brincadeira”.

    Outro dia, passando em frente a uma escola, ouvi uma criança cantar:

    “Joga pedra no cego pra ele pular. Joga pedra no cego pra ele pular.”

    Com certeza, ela não tirou isso da própria cabeça.

    Não estou dizendo que a sociedade se resume a uma legião de idiotas.

    Tem muita gente boa por aí.

    Mas é difícil conviver com a fatia ruim, que não é tão pequena assim.

    Se eu viver mais 50 anos, sei que não verei grandes mudanças.

    Mas tenho esperança de que, quem sabe, daqui a 500 anos, isso seja um pouco diferente.

    Houve um tempo em que era proibido uma pessoa preta sentar-se à mesa com uma pessoa branca.

    Graças a muita luta, isso mudou.

    Talvez, um dia, pessoas cegas possam entrar num bar, ir a um parque, embarcar em um avião, sem virar o centro das atenções.

    Quem sabe, um dia, eu possa sentar numa mesa de bar sem ter que provar nada, sem ser questionado sobre minha história, sem me tornar o bobo da corte.

    Quem sabe, um dia, eu possa ser visto apenas como um ser humano.

    Nem como super-herói, nem como coitado.

    Apenas um ser humano.

    Eu poderia, como de praxe, encerrar este texto com meu nome e minha assinatura.

    Mas hoje, encerro e assino como Coisa.

    Se por muitas pessoas sou tratado, chamado e visto como coisa, então eu escancaro isso e devolvo à sociedade esse espelho cruel.

     

    Por Coisa

     

     

  • O silêncio pode ser remédio

    O silêncio pode ser remédio

    Quando a alma se vê submersa em tempestades de dúvidas, angústias, medos e solidão, talvez seja tempo de silenciar.

    De calar por dentro e por fora, e apenas esperar que os ventos se aquietem.

    O silêncio, esse ruído denso que às vezes perturba, pode ser, na verdade, um sussurro de cura.

    Talvez ele ensine a alma a organizar seus sentimentos, a alinhar as dores, a respirar entre os cacos.

    É nas noites mais escuras que a alma mais clama por consolo.

    Mas, um dia, um sábio disse baixinho à alma: o silêncio é remédio.

    E, com o tempo, ele se torna mestre.

    Porque o silêncio e o tempo, juntos, sabem ensinar aquilo que palavra nenhuma alcança.

    Francis Guimarães

  • O que ainda não chegou ao divã?

    O que ainda não chegou ao divã?

    Cultura, representatividade e pertencimento

    Se tem algo que eu realmente aprecio é uma boa série. Daquelas que prendem o telespectador, que nos fazem viver cada cena junto com os personagens. É curioso como algumas histórias têm o poder de nos acompanhar durante meses, fazendo com que aquela trama continue viva dentro de nós.

    Na infância e no início da adolescência, eu tinha verdadeira adoração por Carga Pesada. Chegava a imaginar que era o parceiro de viagem do caminhoneiro Pedro e do grande Bino. Talvez a série até tenha inspirado muitas pessoas a escolherem a estrada e a boleia como estilo de vida. No meu caso, porém, o destino quis que eu não pudesse estar na boleia.

    Mas as histórias do audiovisual sempre seguiram acompanhando a minha caminhada. Passei muitos anos acompanhando Dr. House, uma série americana que prendeu completamente a minha atenção e me fez, ao mesmo tempo, odiar e admirar o brilhante e excêntrico médico Gregory House. Talvez seja uma das minhas séries estrangeiras favoritas.

    Mas, como bom brasileiro que sou, também adoro as produções do nosso país. Sempre acompanho nossos filmes e séries. Como não se envolver com O Auto da Compadecida? Como não se emocionar com Central do Brasil? Como não ficar preso ao mistério de A Cura? E o que dizer da fantástica segunda temporada de Justiça?

    Se não pude viajar na boleia de um caminhão, encontrei outras formas de viajar.

    Nos novos tempos, essas produções ganharam um significado ainda maior para mim. Hoje posso acompanhar muitas delas por meio dos recursos de audiodescrição, tornando essa experiência muito mais completa e imersiva para quem, assim como eu, percebe o audiovisual por meio da audição.

    Mas, entre tantas produções, preciso falar de uma em especial: Sessão de Terapia. Conduzida por esse grandioso ator, diretor e escritor que tanto admiro: Selton Mello.

    Sessão de Terapia vai muito além de simplesmente prender o espectador diante da televisão. Ao longo de suas seis temporadas, apresenta histórias profundas, humanas e extremamente sensíveis. Tenho certeza de que muitas delas acabam se tornando um verdadeiro espelho da realidade de quem assiste.

    Agora segura, porque lá vêm alguns spoilers. Desde já, peço desculpas a quem não gosta deles.

    Logo no início da primeira temporada, já no primeiro episódio, me apaixonei pela confusa e sedutora personagem Júlia. Por mais estranho que possa parecer, durante sua terapia eu até me identifiquei com ela. Sua forma de tentar demonstrar os sentimentos ao terapeuta Téo, seu jeito provocador de lidar com as situações e até a maneira como narrava alguns acontecimentos me fizeram refletir sobre mim mesmo.

    Mas, ao mesmo tempo, em algumas cenas também me percebi no próprio Téo. A forma como tenta ajudar as pessoas, a dificuldade de lidar com alguns conflitos, a fuga de determinadas situações e até seus problemas familiares despertaram em mim diversas reflexões.

    Outro personagem que me marcou profundamente foi Breno, um policial e atirador de elite tomado por conflitos internos. Apesar da postura agressiva e da aparência de alguém extremamente durão, escondia uma dor profunda e uma evidente carência afetiva. Foi um dos personagens da primeira temporada com quem mais me identifiquei.

    O casal Ana e João também me marcou bastante. Em muitos momentos, achei os dois difíceis, confusos e até cansativos. Mas, justamente por isso, fizeram-me refletir sobre as relações conjugais, sobre minha vida atual e até sobre lembranças da minha infância. Entre eles estava Daniel, um menino de apenas dez anos, tentando compreender o mundo enquanto vivia o colapso do relacionamento dos próprios pais. Sua presença na terapia tornou aquela história ainda mais próxima de mim.

    Carol quase me levou às lágrimas. Sua luta contra o câncer, somada aos demais conflitos que carregava, colocou-me frente a frente com a angústia vivida por tantos pacientes oncológicos. Sua história despertou lembranças de situações que acompanhei muito de perto.

    Entre todas as histórias das três primeiras temporadas, foram esses os personagens com quem mais criei vínculo.

    A partir da quarta temporada, a série passa por uma grande virada. Téo deixa de ser o terapeuta, e quem assume esse papel é Caio, brilhantemente interpretado por Selton Mello.

    A história de Caio é simplesmente incrível e profundamente triste. Foi durante suas sessões de terapia, no consultório do terapeuta Davi, que eu realmente me emocionei e não consegui conter as lágrimas. Em diversos momentos, vi a mim mesmo em algumas de suas angústias e compreendi conceitos que, até então, nunca havia observado por outros ângulos.

    Embora eu não tenha me identificado tão intensamente com os pacientes dessa temporada, algumas histórias me tocaram profundamente. Uma delas foi a de Haidée, uma viúva idosa que se sente completamente solitária e inútil para a sociedade. Sua história me fez refletir sobre a velhice de uma forma muito mais ampla, rompendo a bolha em que, até então, eu enxergava essa realidade.

    Foi também nessa temporada que as questões identitárias ganharam um espaço gigantesco. Nando, um executivo negro bem-sucedido, enfrenta a impotência sexual e a ansiedade de desempenho como consequências do racismo estrutural. Sua esposa, Maria Lúcia, também participa dessa construção, enriquecendo ainda mais a discussão sobre o tema.

    Mas foi na quinta temporada que encontrei o personagem em quem posso dizer que mais vi minha própria realidade refletida, guardadas as devidas proporções. Tony, um motoboy da periferia que enfrenta o estresse extremo da profissão e as injustiças sociais do cotidiano.

    Seu desejo de ser percebido como alguém pertencente à sociedade, em igualdade de condições, dialogou profundamente comigo. É um personagem que escancara os conflitos de uma sociedade desigual, marcada pela exclusão, pela falta de oportunidades e pela constante necessidade de provar o próprio valor.

    A sexta temporada retorna reunindo diversas histórias marcantes. Entre elas, meu personagem favorito é Ulisses, tanto pela sua trajetória quanto pela sua inconfundível voz de trovão, que chamou minha atenção desde a primeira cena.

    Foram muitos os momentos em que desliguei a televisão e permaneci em silêncio, refletindo sobre a vida, sobre nossos conflitos e sobre tudo o que significa simplesmente existir.

    A televisão e o cinema passaram, ao longo dos anos, por importantes transformações. Cada vez mais, tornaram-se espaços de diálogo, de desconstrução de conceitos que, por muito tempo, foram distorcidos, e de valorização das mais diversas identidades e realidades. Essas narrativas cumprem um papel fundamental na construção de uma sociedade mais consciente, empática e plural.

    Sessão de Terapia faz isso de maneira brilhante. A série reúne múltiplas histórias e nos convida a sair da nossa própria bolha para compreender a realidade, os conflitos e as dores do outro. Em muitos momentos, o telespectador também acaba se percebendo naqueles personagens, como aconteceu comigo.

    Ao longo de suas seis temporadas, a série aborda temas como culpa, luto, relações familiares, racismo, homofobia, aceitação da população LGBTQIA+, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno de compulsão alimentar, gordofobia, burnout, os impactos da pandemia sobre os profissionais da saúde, câncer, etarismo, alcoolismo, depressão, infertilidade, negligência e tantas outras questões que fazem parte da experiência humana.

    É a diversidade humana retratada na tela, trazendo para o centro do debate temas fundamentais. O trabalho dos roteiristas é brilhante e demonstra um profundo conhecimento da psicologia humana, certamente construído com o apoio de terapeutas e especialistas.

    Depois de seis temporadas, percebi que havia encontrado um pouco de mim em muitos daqueles personagens. Em alguns chorei, em outros me reconheci, em outros simplesmente aprendi a enxergar melhor a realidade de pessoas muito diferentes da minha. Foi justamente nesse momento que percebi uma ausência.

    Eu, que entre tantas características humanas também tenho uma deficiência, senti falta de encontrar um personagem que retratasse, de forma mais ampla, a minha realidade e a realidade vivida por milhões de pessoas com deficiência.

    É verdade que a sexta temporada apresenta Vinícius, um personagem que está perdendo a visão e inicia seu processo de habilitação e reabilitação. Ao longo da trama, ele fala sobre o aprendizado do sistema Braille, passa a utilizar a bengala e compartilha o luto provocado pela perda da visão. Em sua última aparição, transmite a sensação de estar mais preparado para enfrentar essa nova etapa da vida.

    Vinícius foi um personagem com quem também me identifiquei. Sua participação foi importante e merece ser reconhecida.

    Mais do que isso, chamou minha atenção o cuidado com que sua história foi construída. Em seu encerramento, a série faz referência a Jorge Luis Borges, um dos maiores escritores da literatura mundial, que também era cego. A citação rompe um dos equívocos mais difundidos sobre a deficiência visual: a ideia de que a cegueira significa viver na escuridão. Borges nos convida a compreender que ela pode ser percebida de outras maneiras. Em sua obra, a cegueira não é apresentada como uma noite permanente, mas como uma experiência que também pode ser atravessada pela luz, pelas cores e por novas formas de perceber o mundo.

    Para quem conhece Borges ou vivencia a realidade da cegueira, essa referência é profundamente significativa. Eu me encontrei naquela cena. Encontrei respeito, pesquisa e uma delicadeza rara na forma como a série escolheu encerrar sua participação.

    Mas, justamente por isso, uma inquietação permaneceu.

    Será que uma participação tão breve foi suficiente para que essa mensagem chegasse ao telespectador?

    Ao longo da narrativa, acompanhamos, ainda que de forma bastante breve, a perda da visão, o impacto emocional do diagnóstico e os primeiros passos da reabilitação. Entretanto, pouco conhecemos sobre a vida que continua depois disso. Não vemos alguém reconstruindo sua autonomia, trabalhando, estudando, constituindo família, vivendo relacionamentos, enfrentando o capacitismo, superando barreiras de acessibilidade ou simplesmente experimentando a rotina que milhões de pessoas com deficiência vivem todos os dias.

    Quando a história começa a apontar para a vida após a reabilitação, ela termina.

    Talvez seja justamente aí que esteja minha principal reflexão.

    Enquanto assistia à série, emocionei-me com a profundidade dedicada a outras narrativas. Nando e Maria Lúcia tiveram espaço para discutir o racismo estrutural, as desigualdades sociais, a importância da participação política e questões extremamente atuais. Outros personagens abordaram com riqueza de detalhes o etarismo, os conflitos relacionados à identidade, ao reconhecimento e à valorização da população LGBTQIA+, entre tantos outros temas que receberam tempo para amadurecer diante do público.

    A deficiência também esteve presente.

    E esteve bem representada.

    “Sessão de Terapia” não caiu em dois estereótipos bastante comuns quando a deficiência aparece na ficção. Vinícius não foi tratado como um coitado digno de pena, nem como um herói da superação. Foi apresentado como um ser humano vivendo um momento profundamente delicado da própria existência.

    Minha inquietação não está na qualidade dessa representação.

    Está no espaço que ela ocupa.

    Talvez exista uma terceira forma de invisibilização.

    Não aquela que apaga completamente uma pessoa da narrativa.

    Mas aquela que lhe concede um espaço tão pequeno que sua história nunca alcança toda a sua potência.

    A pessoa está presente.

    Ela fala.

    Ela emociona.

    Ela é lembrada, sobretudo por quem presta atenção aos detalhes.

    Mas sua trajetória permanece breve.

    Como se dissesse apenas:

    “Nós também estamos aqui.”

    Sem, no entanto, permitir que o público realmente conheça quem ela é.

    Será que não acontece o mesmo na sociedade?

    Será que nós, pessoas com deficiência, também não costumamos ocupar espaços reduzidos?

    Estamos presentes.

    Participamos.

    Somos lembrados.

    Mas quantas vezes realmente ocupamos o centro das decisões, das histórias e das oportunidades?

    Talvez a conhecida frase “a arte imita a vida” encontre aqui um significado especial.

    Talvez “Sessão de Terapia” apenas reproduza aquilo que acontece fora da tela.

    Onde nasce essa invisibilidade?

    Será que ela decorre apenas do preconceito?

    Ou também da forma como nossa participação costuma ser limitada?

    Não somos completamente excluídos.

    Mas, muitas vezes, também não nos permitem ocupar plenamente os espaços.

    Ao analisar minha própria trajetória e perceber o quanto me encontrei em tantos personagens da série, cheguei a uma conclusão curiosa.

    Talvez Vinícius me represente justamente porque sua participação é breve.

    Não porque sua história seja pequena.

    Mas porque ela espelha algo que tantas pessoas com deficiência vivem diariamente.

    Nossa existência é reconhecida.

    Nossa humanidade também.

    Mas, muitas vezes, parecemos ocupar espaços quase protocolares, suficientes para que ninguém possa dizer que fomos esquecidos, mas insuficientes para que nossa experiência seja plenamente conhecida em toda a sua complexidade.

    Não é apenas em “Sessão de Terapia” que isso acontece.

    Na política.

    Nas universidades.

    No mercado de trabalho.

    Nos espaços de participação social.

    Na mídia.

    Na cultura.

    Ainda costumamos ocupar uma presença discreta.

    Às vezes, quase simbólica.

    Isso me leva a outra pergunta.

    Será que nós, pessoas com deficiência, ainda continuamos sendo representados de três maneiras?

    Às vezes somos romantizados, transformados em exemplos quase sobre-humanos de superação.

    Em outras, somos vistos com pena, como pessoas incapazes de conduzir a própria vida.

    Mas existe uma terceira forma, talvez mais silenciosa.

    Quando somos representados com respeito, sensibilidade e humanidade, porém de maneira reduzida.

    Estamos na história.

    Mas quase nunca temos tempo suficiente para que nossa história seja plenamente contada.

    Talvez seja justamente esse terceiro caminho o mais difícil de perceber.

    Porque ele não nasce da discriminação explícita.

    Nasce da limitação do espaço.

    E o espaço também comunica.

    Ele comunica quem a sociedade considera importante conhecer.

    Quem merece ser ouvido.

    Quem pode permanecer na narrativa.

    Talvez poucas pessoas se lembrem da série norte-americana “Early Edition” (Edição de Amanhã), exibida a partir de 1996.

    A trama acompanha Gary Hobson, um homem que recebe, todas as manhãs, o jornal do dia seguinte e tenta impedir que as tragédias anunciadas aconteçam.

    Entre seus personagens centrais está Marissa Clark, uma mulher negra e cega.

    E talvez seja justamente aí que esteja um aspecto interessante.

    Marissa nunca foi reduzida à sua deficiência.

    Também não era apresentada como uma heroína extraordinária.

    Era simplesmente uma pessoa.

    Sua cegueira fazia parte de quem ela era, influenciava sua maneira de viver, mas não limitava sua existência.

    Ela aconselhava.

    Discordava.

    Errava.

    Participava das decisões.

    Construía amizades.

    Ocupava seu espaço com absoluta naturalidade.

    Isso me faz pensar.

    Será que, passados quase trinta anos, realmente evoluímos na forma como representamos as pessoas com deficiência?

    A representatividade não existe apenas para que alguém se reconheça na tela.

    Ela também amplia o olhar de toda a sociedade.

    Ela mostra que pessoas com deficiência vivem afetos, conflitos, responsabilidades, escolhas, fracassos, alegrias e sonhos como qualquer outra pessoa.

    Se ainda somos pouco vistos na ficção, talvez isso revele algo maior do que uma simples escolha de roteiro.

    Talvez revele como a própria sociedade ainda distribui os espaços.

    Quem ocupa o centro.

    Quem permanece nas margens.

    Quem aparece apenas o suficiente para que ninguém possa dizer que foi completamente esquecido.

    De forma alguma escrevo estas linhas para diminuir a qualidade de “Sessão de Terapia”, muito menos o trabalho extraordinário de Selton Mello, dos roteiristas e de toda a equipe envolvida na produção.

    Pelo contrário.

    Talvez a série seja justamente um retrato muito fiel da sociedade em que vivemos.

    E é exatamente por isso que provoca uma reflexão tão importante.

    Espero sinceramente que novas temporadas continuem sendo produzidas e que, entre tantas histórias humanas que ainda precisam ser contadas, possamos acompanhar também personagens com deficiência vivendo não apenas o impacto da descoberta de sua condição, mas a continuidade de suas vidas.

    Porque a vida continua.

    Depois da reabilitação.

    Depois da bengala.

    Depois do Braille.

    Depois do diagnóstico.

    Depois da aceitação.

    E talvez seja justamente essa vida, cheia de trabalho, amizades, amores, escolhas, preconceitos, conquistas, frustrações, política, humor, cansaço, sonhos e humanidade, que ainda esteja faltando aparecer com mais frequência nas histórias que contamos.

    Porque, quando todas as pessoas encontram espaço para existir nas narrativas, não é apenas a ficção que se torna mais rica.

    É a própria sociedade que amplia seu olhar sobre a diversidade humana e compreende que existem múltiplas formas de viver, sentir e existir.

    Ao terminar a sexta temporada, fiquei com uma última inquietação.

    Vinícius chegou ao divã.

    Mas será que toda a experiência de viver com deficiência conseguiu entrar naquela sala?

    Talvez essa seja a pergunta que a série, mesmo sem ter essa intenção, deixa para todos nós.

    O que ainda não chegou ao divã?

    Francis Guimarães