O que ainda não chegou ao divã?
Cultura, representatividade e pertencimento
Se tem algo que eu realmente aprecio é uma boa série. Daquelas que prendem o telespectador, que nos fazem viver cada cena junto com os personagens. É curioso como algumas histórias têm o poder de nos acompanhar durante meses, fazendo com que aquela trama continue viva dentro de nós.
Na infância e no início da adolescência, eu tinha verdadeira adoração por Carga Pesada. Chegava a imaginar que era o parceiro de viagem do caminhoneiro Pedro e do grande Bino. Talvez a série até tenha inspirado muitas pessoas a escolherem a estrada e a boleia como estilo de vida. No meu caso, porém, o destino quis que eu não pudesse estar na boleia.
Mas as histórias do audiovisual sempre seguiram acompanhando a minha caminhada. Passei muitos anos acompanhando Dr. House, uma série americana que prendeu completamente a minha atenção e me fez, ao mesmo tempo, odiar e admirar o brilhante e excêntrico médico Gregory House. Talvez seja uma das minhas séries estrangeiras favoritas.
Mas, como bom brasileiro que sou, também adoro as produções do nosso país. Sempre acompanho nossos filmes e séries. Como não se envolver com O Auto da Compadecida? Como não se emocionar com Central do Brasil? Como não ficar preso ao mistério de A Cura? E o que dizer da fantástica segunda temporada de Justiça?
Se não pude viajar na boleia de um caminhão, encontrei outras formas de viajar.
Nos novos tempos, essas produções ganharam um significado ainda maior para mim. Hoje posso acompanhar muitas delas por meio dos recursos de audiodescrição, tornando essa experiência muito mais completa e imersiva para quem, assim como eu, percebe o audiovisual por meio da audição.
Mas, entre tantas produções, preciso falar de uma em especial: Sessão de Terapia. Conduzida por esse grandioso ator, diretor e escritor que tanto admiro: Selton Mello.
Sessão de Terapia vai muito além de simplesmente prender o espectador diante da televisão. Ao longo de suas seis temporadas, apresenta histórias profundas, humanas e extremamente sensíveis. Tenho certeza de que muitas delas acabam se tornando um verdadeiro espelho da realidade de quem assiste.
Agora segura, porque lá vêm alguns spoilers. Desde já, peço desculpas a quem não gosta deles.
Logo no início da primeira temporada, já no primeiro episódio, me apaixonei pela confusa e sedutora personagem Júlia. Por mais estranho que possa parecer, durante sua terapia eu até me identifiquei com ela. Sua forma de tentar demonstrar os sentimentos ao terapeuta Téo, seu jeito provocador de lidar com as situações e até a maneira como narrava alguns acontecimentos me fizeram refletir sobre mim mesmo.
Mas, ao mesmo tempo, em algumas cenas também me percebi no próprio Téo. A forma como tenta ajudar as pessoas, a dificuldade de lidar com alguns conflitos, a fuga de determinadas situações e até seus problemas familiares despertaram em mim diversas reflexões.
Outro personagem que me marcou profundamente foi Breno, um policial e atirador de elite tomado por conflitos internos. Apesar da postura agressiva e da aparência de alguém extremamente durão, escondia uma dor profunda e uma evidente carência afetiva. Foi um dos personagens da primeira temporada com quem mais me identifiquei.
O casal Ana e João também me marcou bastante. Em muitos momentos, achei os dois difíceis, confusos e até cansativos. Mas, justamente por isso, fizeram-me refletir sobre as relações conjugais, sobre minha vida atual e até sobre lembranças da minha infância. Entre eles estava Daniel, um menino de apenas dez anos, tentando compreender o mundo enquanto vivia o colapso do relacionamento dos próprios pais. Sua presença na terapia tornou aquela história ainda mais próxima de mim.
Carol quase me levou às lágrimas. Sua luta contra o câncer, somada aos demais conflitos que carregava, colocou-me frente a frente com a angústia vivida por tantos pacientes oncológicos. Sua história despertou lembranças de situações que acompanhei muito de perto.
Entre todas as histórias das três primeiras temporadas, foram esses os personagens com quem mais criei vínculo.
A partir da quarta temporada, a série passa por uma grande virada. Téo deixa de ser o terapeuta, e quem assume esse papel é Caio, brilhantemente interpretado por Selton Mello.
A história de Caio é simplesmente incrível e profundamente triste. Foi durante suas sessões de terapia, no consultório do terapeuta Davi, que eu realmente me emocionei e não consegui conter as lágrimas. Em diversos momentos, vi a mim mesmo em algumas de suas angústias e compreendi conceitos que, até então, nunca havia observado por outros ângulos.
Embora eu não tenha me identificado tão intensamente com os pacientes dessa temporada, algumas histórias me tocaram profundamente. Uma delas foi a de Haidée, uma viúva idosa que se sente completamente solitária e inútil para a sociedade. Sua história me fez refletir sobre a velhice de uma forma muito mais ampla, rompendo a bolha em que, até então, eu enxergava essa realidade.
Foi também nessa temporada que as questões identitárias ganharam um espaço gigantesco. Nando, um executivo negro bem-sucedido, enfrenta a impotência sexual e a ansiedade de desempenho como consequências do racismo estrutural. Sua esposa, Maria Lúcia, também participa dessa construção, enriquecendo ainda mais a discussão sobre o tema.
Mas foi na quinta temporada que encontrei o personagem em quem posso dizer que mais vi minha própria realidade refletida, guardadas as devidas proporções. Tony, um motoboy da periferia que enfrenta o estresse extremo da profissão e as injustiças sociais do cotidiano.
Seu desejo de ser percebido como alguém pertencente à sociedade, em igualdade de condições, dialogou profundamente comigo. É um personagem que escancara os conflitos de uma sociedade desigual, marcada pela exclusão, pela falta de oportunidades e pela constante necessidade de provar o próprio valor.
A sexta temporada retorna reunindo diversas histórias marcantes. Entre elas, meu personagem favorito é Ulisses, tanto pela sua trajetória quanto pela sua inconfundível voz de trovão, que chamou minha atenção desde a primeira cena.
Foram muitos os momentos em que desliguei a televisão e permaneci em silêncio, refletindo sobre a vida, sobre nossos conflitos e sobre tudo o que significa simplesmente existir.
A televisão e o cinema passaram, ao longo dos anos, por importantes transformações. Cada vez mais, tornaram-se espaços de diálogo, de desconstrução de conceitos que, por muito tempo, foram distorcidos, e de valorização das mais diversas identidades e realidades. Essas narrativas cumprem um papel fundamental na construção de uma sociedade mais consciente, empática e plural.
Sessão de Terapia faz isso de maneira brilhante. A série reúne múltiplas histórias e nos convida a sair da nossa própria bolha para compreender a realidade, os conflitos e as dores do outro. Em muitos momentos, o telespectador também acaba se percebendo naqueles personagens, como aconteceu comigo.
Ao longo de suas seis temporadas, a série aborda temas como culpa, luto, relações familiares, racismo, homofobia, aceitação da população LGBTQIA+, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno de compulsão alimentar, gordofobia, burnout, os impactos da pandemia sobre os profissionais da saúde, câncer, etarismo, alcoolismo, depressão, infertilidade, negligência e tantas outras questões que fazem parte da experiência humana.
É a diversidade humana retratada na tela, trazendo para o centro do debate temas fundamentais. O trabalho dos roteiristas é brilhante e demonstra um profundo conhecimento da psicologia humana, certamente construído com o apoio de terapeutas e especialistas.
Depois de seis temporadas, percebi que havia encontrado um pouco de mim em muitos daqueles personagens. Em alguns chorei, em outros me reconheci, em outros simplesmente aprendi a enxergar melhor a realidade de pessoas muito diferentes da minha. Foi justamente nesse momento que percebi uma ausência.
Eu, que entre tantas características humanas também tenho uma deficiência, senti falta de encontrar um personagem que retratasse, de forma mais ampla, a minha realidade e a realidade vivida por milhões de pessoas com deficiência.
É verdade que a sexta temporada apresenta Vinícius, um personagem que está perdendo a visão e inicia seu processo de habilitação e reabilitação. Ao longo da trama, ele fala sobre o aprendizado do sistema Braille, passa a utilizar a bengala e compartilha o luto provocado pela perda da visão. Em sua última aparição, transmite a sensação de estar mais preparado para enfrentar essa nova etapa da vida.
Vinícius foi um personagem com quem também me identifiquei. Sua participação foi importante e merece ser reconhecida.
Mais do que isso, chamou minha atenção o cuidado com que sua história foi construída. Em seu encerramento, a série faz referência a Jorge Luis Borges, um dos maiores escritores da literatura mundial, que também era cego. A citação rompe um dos equívocos mais difundidos sobre a deficiência visual: a ideia de que a cegueira significa viver na escuridão. Borges nos convida a compreender que ela pode ser percebida de outras maneiras. Em sua obra, a cegueira não é apresentada como uma noite permanente, mas como uma experiência que também pode ser atravessada pela luz, pelas cores e por novas formas de perceber o mundo.
Para quem conhece Borges ou vivencia a realidade da cegueira, essa referência é profundamente significativa. Eu me encontrei naquela cena. Encontrei respeito, pesquisa e uma delicadeza rara na forma como a série escolheu encerrar sua participação.
Mas, justamente por isso, uma inquietação permaneceu.
Será que uma participação tão breve foi suficiente para que essa mensagem chegasse ao telespectador?
Ao longo da narrativa, acompanhamos, ainda que de forma bastante breve, a perda da visão, o impacto emocional do diagnóstico e os primeiros passos da reabilitação. Entretanto, pouco conhecemos sobre a vida que continua depois disso. Não vemos alguém reconstruindo sua autonomia, trabalhando, estudando, constituindo família, vivendo relacionamentos, enfrentando o capacitismo, superando barreiras de acessibilidade ou simplesmente experimentando a rotina que milhões de pessoas com deficiência vivem todos os dias.
Quando a história começa a apontar para a vida após a reabilitação, ela termina.
Talvez seja justamente aí que esteja minha principal reflexão.
Enquanto assistia à série, emocionei-me com a profundidade dedicada a outras narrativas. Nando e Maria Lúcia tiveram espaço para discutir o racismo estrutural, as desigualdades sociais, a importância da participação política e questões extremamente atuais. Outros personagens abordaram com riqueza de detalhes o etarismo, os conflitos relacionados à identidade, ao reconhecimento e à valorização da população LGBTQIA+, entre tantos outros temas que receberam tempo para amadurecer diante do público.
A deficiência também esteve presente.
E esteve bem representada.
“Sessão de Terapia” não caiu em dois estereótipos bastante comuns quando a deficiência aparece na ficção. Vinícius não foi tratado como um coitado digno de pena, nem como um herói da superação. Foi apresentado como um ser humano vivendo um momento profundamente delicado da própria existência.
Minha inquietação não está na qualidade dessa representação.
Está no espaço que ela ocupa.
Talvez exista uma terceira forma de invisibilização.
Não aquela que apaga completamente uma pessoa da narrativa.
Mas aquela que lhe concede um espaço tão pequeno que sua história nunca alcança toda a sua potência.
A pessoa está presente.
Ela fala.
Ela emociona.
Ela é lembrada, sobretudo por quem presta atenção aos detalhes.
Mas sua trajetória permanece breve.
Como se dissesse apenas:
“Nós também estamos aqui.”
Sem, no entanto, permitir que o público realmente conheça quem ela é.
Será que não acontece o mesmo na sociedade?
Será que nós, pessoas com deficiência, também não costumamos ocupar espaços reduzidos?
Estamos presentes.
Participamos.
Somos lembrados.
Mas quantas vezes realmente ocupamos o centro das decisões, das histórias e das oportunidades?
Talvez a conhecida frase “a arte imita a vida” encontre aqui um significado especial.
Talvez “Sessão de Terapia” apenas reproduza aquilo que acontece fora da tela.
Onde nasce essa invisibilidade?
Será que ela decorre apenas do preconceito?
Ou também da forma como nossa participação costuma ser limitada?
Não somos completamente excluídos.
Mas, muitas vezes, também não nos permitem ocupar plenamente os espaços.
Ao analisar minha própria trajetória e perceber o quanto me encontrei em tantos personagens da série, cheguei a uma conclusão curiosa.
Talvez Vinícius me represente justamente porque sua participação é breve.
Não porque sua história seja pequena.
Mas porque ela espelha algo que tantas pessoas com deficiência vivem diariamente.
Nossa existência é reconhecida.
Nossa humanidade também.
Mas, muitas vezes, parecemos ocupar espaços quase protocolares, suficientes para que ninguém possa dizer que fomos esquecidos, mas insuficientes para que nossa experiência seja plenamente conhecida em toda a sua complexidade.
Não é apenas em “Sessão de Terapia” que isso acontece.
Na política.
Nas universidades.
No mercado de trabalho.
Nos espaços de participação social.
Na mídia.
Na cultura.
Ainda costumamos ocupar uma presença discreta.
Às vezes, quase simbólica.
Isso me leva a outra pergunta.
Será que nós, pessoas com deficiência, ainda continuamos sendo representados de três maneiras?
Às vezes somos romantizados, transformados em exemplos quase sobre-humanos de superação.
Em outras, somos vistos com pena, como pessoas incapazes de conduzir a própria vida.
Mas existe uma terceira forma, talvez mais silenciosa.
Quando somos representados com respeito, sensibilidade e humanidade, porém de maneira reduzida.
Estamos na história.
Mas quase nunca temos tempo suficiente para que nossa história seja plenamente contada.
Talvez seja justamente esse terceiro caminho o mais difícil de perceber.
Porque ele não nasce da discriminação explícita.
Nasce da limitação do espaço.
E o espaço também comunica.
Ele comunica quem a sociedade considera importante conhecer.
Quem merece ser ouvido.
Quem pode permanecer na narrativa.
Talvez poucas pessoas se lembrem da série norte-americana “Early Edition” (Edição de Amanhã), exibida a partir de 1996.
A trama acompanha Gary Hobson, um homem que recebe, todas as manhãs, o jornal do dia seguinte e tenta impedir que as tragédias anunciadas aconteçam.
Entre seus personagens centrais está Marissa Clark, uma mulher negra e cega.
E talvez seja justamente aí que esteja um aspecto interessante.
Marissa nunca foi reduzida à sua deficiência.
Também não era apresentada como uma heroína extraordinária.
Era simplesmente uma pessoa.
Sua cegueira fazia parte de quem ela era, influenciava sua maneira de viver, mas não limitava sua existência.
Ela aconselhava.
Discordava.
Errava.
Participava das decisões.
Construía amizades.
Ocupava seu espaço com absoluta naturalidade.
Isso me faz pensar.
Será que, passados quase trinta anos, realmente evoluímos na forma como representamos as pessoas com deficiência?
A representatividade não existe apenas para que alguém se reconheça na tela.
Ela também amplia o olhar de toda a sociedade.
Ela mostra que pessoas com deficiência vivem afetos, conflitos, responsabilidades, escolhas, fracassos, alegrias e sonhos como qualquer outra pessoa.
Se ainda somos pouco vistos na ficção, talvez isso revele algo maior do que uma simples escolha de roteiro.
Talvez revele como a própria sociedade ainda distribui os espaços.
Quem ocupa o centro.
Quem permanece nas margens.
Quem aparece apenas o suficiente para que ninguém possa dizer que foi completamente esquecido.
De forma alguma escrevo estas linhas para diminuir a qualidade de “Sessão de Terapia”, muito menos o trabalho extraordinário de Selton Mello, dos roteiristas e de toda a equipe envolvida na produção.
Pelo contrário.
Talvez a série seja justamente um retrato muito fiel da sociedade em que vivemos.
E é exatamente por isso que provoca uma reflexão tão importante.
Espero sinceramente que novas temporadas continuem sendo produzidas e que, entre tantas histórias humanas que ainda precisam ser contadas, possamos acompanhar também personagens com deficiência vivendo não apenas o impacto da descoberta de sua condição, mas a continuidade de suas vidas.
Porque a vida continua.
Depois da reabilitação.
Depois da bengala.
Depois do Braille.
Depois do diagnóstico.
Depois da aceitação.
E talvez seja justamente essa vida, cheia de trabalho, amizades, amores, escolhas, preconceitos, conquistas, frustrações, política, humor, cansaço, sonhos e humanidade, que ainda esteja faltando aparecer com mais frequência nas histórias que contamos.
Porque, quando todas as pessoas encontram espaço para existir nas narrativas, não é apenas a ficção que se torna mais rica.
É a própria sociedade que amplia seu olhar sobre a diversidade humana e compreende que existem múltiplas formas de viver, sentir e existir.
Ao terminar a sexta temporada, fiquei com uma última inquietação.
Vinícius chegou ao divã.
Mas será que toda a experiência de viver com deficiência conseguiu entrar naquela sala?
Talvez essa seja a pergunta que a série, mesmo sem ter essa intenção, deixa para todos nós.
O que ainda não chegou ao divã?
Francis Guimarães

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