Existem enchentes que não são sobre as águas

Existem enchentes que não são sobre as águas

Nesta madrugada, mais uma vez, a insônia, tão presente em minha vida, acompanhada por muitos pensamentos e sentimentos, vem acompanhada. Busco dentro de mim respostas para tantas inquietações, deparo-me analisando o meu dia e percebo que o sono não virá nesta madrugada quente, bombardeada por tantos pensamentos.

Hoje foi um dia agitado. Mal consegui parar para responder às mensagens do WhatsApp, mas, ainda assim, dediquei um tempo para assistir a uma série de documentários no YouTube que contam as histórias das enchentes que atingiram o estado do Rio Grande do Sul.

Depois desses documentários e com tantos pensamentos, seria ainda mais difícil encontrar, em algum canto dentro de mim, o tão procurado sono.

É triste demais lembrar da enchente no estado que tanto amo. O estado onde nasci, onde muito sonhei e realizei alguns sonhos. O estado onde nasceu minha filha. O lugar onde vivi grande parte da minha existência.

Ouvindo os documentários sobre um desastre tão recente e tão presente em minha realidade, lembrei de toda a minha jornada e voltei ao dia 2 de maio de 2024, uma data que considero um marco em minha história.

Embora a tristeza gerada por essas catástrofes seja imensa, acredito que, de uma forma ou de outra, tudo pode ser superado.

Ao ouvir os depoimentos nos documentários, percebi que quase todos destacavam a importância da boa vontade das pessoas, aquelas que dedicaram seu tempo para ajudar e salvar quem mais necessitava, principalmente os que estavam na linha de frente. E, claro, se sobressaíram aqueles que tinham um barco para realizar os resgates, levando os atingidos pela enchente aos abrigos, onde poderiam iniciar uma nova fase: a fase da reconstrução.

No dia 3 de maio de 2024, eu estava sentado, trabalhando em meu quarto, ouvindo o barulho da chuva incessante, e algo dentro de mim dizia que aquele não era um dia comum.

O relógio marcava por volta das 17h, e a chuva não dava trégua. As emissoras de rádio noticiavam que diversos lugares já enfrentavam situação de enchente e que as autoridades estavam evacuando vários bairros em diferentes cidades. Eu morava no centro de uma das cidades mais atingidas pela catástrofe, Canoas.

O despertador avisava que era hora de buscar minha filha de três anos na escola. Peguei minha bengala e meu guarda-chuva, desci do prédio e tentei chamar um Uber, mas não havia carros disponíveis. Sem alternativa, caminhei quatro quadras sob a chuva intensa até chegar à escola dela.

A cidade estava tomada por um caos diferente do habitual. O barulho era estranho, as pessoas pareciam diferentes, e o clima não era o mesmo de uma chuva comum. Havia algo no ar que transmitia inquietação e medo.

Cheguei à escola, mas a chuva continuava forte. Conseguimos um Uber até uma padaria, onde esperamos mais de duas horas que a chuva diminuísse. Durante o trajeto, o motorista nos informou que grande parte da cidade já estava com pontos de enchente.

Cheguei ao meu prédio, entrei e me dirigi ao meu apartamento, no quarto andar. Era por volta das 21h, e a chuva seguia intensa, após dias de precipitação contínua.

Sentado à mesa, ouvi o som de uma forte explosão e, logo depois, a energia acabou. Pensei que fosse apenas uma queda de energia causada pela tempestade.

Abri uma garrafa de vinho e sentei-me à janela, que dava de frente para a avenida principal. Ao longe, eu ouvia o som das sirenes de polícia e bombeiros, misturado ao barulho da chuva, que parecia compor uma melodia melancólica, o fundo sonoro de uma cidade mergulhada no caos.

Depois de quase duas garrafas de vinho, a luz não havia voltado, e o sono também parecia distante. Cercado pelos zumbidos e picadas de mosquitos, ouvi na rua, abaixo do meu prédio, o som inconfundível de um caminhão.

Talvez vocês não compreendam, mas tenho a certeza de que o som daquele caminhão jamais sairá da minha memória.

Era um caminhão trazendo pessoas resgatadas da enchente, vindas dos bairros Harmonia e Mathias Velho.

Em meio ao barulho do trânsito, das sirenes e da chuva incessante, o som que mais se destacava era o choro e os lamentos das pessoas que haviam perdido tudo.

Eram 3h da manhã. O fluxo de caminhões que chegavam era intenso. Um abrigo para os resgatados da enchente havia sido montado ao lado da minha casa, no Clube Canoense.

Lá de dentro do meu apartamento, eu ouvia todo aquele caos acontecendo lá embaixo. Sentia-me tão pequeno e impotente diante daquela realidade. Entre um gole e outro de vinho, rezava para que as águas não avançassem mais e para que todas as pessoas pudessem sair daquela triste situação com vida.

Extremamente inquieto e tomado pela sensação de impotência, fui surpreendido pelo som insistente de um grito vindo da rua. Era um grito de desespero, que imediatamente capturou minha atenção. Não sabia explicar, mas aquele som me incomodava profundamente e despertava em mim um desejo intenso de ajudar de alguma forma.

Desci do prédio e caminhei em meio às pessoas, seguindo o som daquele grito que parecia ecoar em todo o caos. Ao me aproximar, perguntei por que aquela pessoa estava gritando. Fui informado que se tratava de uma pessoa autista, em pânico pelo resgate. Não havia uma cama disponível naquele momento para acomodá-la, e isso agravava sua crise.

A cena diante de mim parecia um cenário de guerra, com pessoas perdendo tudo, gritos de sofrimento, e uma confusão generalizada tomando conta da avenida.

Decidi descer com o pouco que tinha para doar. Peguei um colchão e algumas cobertas e desci os quatro andares do prédio, na esperança de proporcionar o mínimo de conforto para alguém que estivesse precisando.

É impossível esquecer aquele clima de tanto sofrimento, em meio às pessoas que haviam perdido tudo. Era uma noite que parecia interminável, repleta de angústia e dor, mas também de pequenos gestos de solidariedade que, de alguma forma, iluminavam a escuridão daquele momento.

Às 5h da manhã do dia 3 de maio, recebi um telefonema da minha mãe, comunicando que sua casa, na cidade de São Leopoldo, estava completamente submersa. Lamentei as perdas materiais, mas agradeci profundamente por ela e todos os nossos entes queridos estarem bem.

Ainda naquela madrugada, da janela do meu apartamento, ouvindo os tantos choros e as inúmeras tristezas, minha mente não parava. Eu pensava muito em como estariam as pessoas que viviam nas áreas mais afetadas e que, assim como eu, tinham uma deficiência. Como estariam as pessoas cegas enfrentando essa situação? E se a água chegasse até o meu prédio? Como eu conseguiria sair dali com minha filha e minha esposa?

Esses pensamentos me assombravam, e eu desejava desesperadamente poder fazer algo por aquelas pessoas. Porém, diante de uma situação tão grande e cruel, eu me sentia pequeno e impotente.

Hoje, ao ouvir os documentários disponíveis no YouTube, ampliou-se a minha certeza que houve muitas falhas por parte dos governos federal, estadual e municipal, especialmente nos resgates e na organização dos abrigos.

Ao mesmo tempo, é emocionante ouvir os relatos dos voluntários, que nos trazem a esperança de que o mundo ainda tem solução. É belo ouvir tantas histórias de pessoas que deram o seu máximo para salvar vidas, arriscando suas próprias vidas para garantir a sobrevivência de outros.

Por outro lado, é repugnante saber que houve pessoas que aproveitaram uma situação tão horrível para tirar proveito, revelando o lado mais sombrio da humanidade em meio à tragédia.

Durante o período da enchente, enquanto morava no Rio Grande do Sul, visitei diversos abrigos e espaços de acolhimento. Apesar de ter oferecido tão pouco para aqueles que tanto precisavam, o sentimento de querer fazer mais me marcou profundamente. Essas vivências ficaram gravadas em minha memória como um lembrete da importância de ajudar, mesmo quando parece pouco diante da enormidade da necessidade.

Mas toda essa terrível experiência me levou a uma profunda e complexa reflexão.

Durante mais de 10 anos da minha vida, trabalhei diretamente em centros de habilitação e reabilitação para pessoas cegas e com baixa visão.

Esse trabalho, que desenvolvi de forma profissional para garantir o meu sustento, também foi conduzido com muita responsabilidade e afeto em todas as minhas ações. Sempre acreditei que o afeto, de forma alguma, apresenta divergência com o profissionalismo de alguém. Pelo contrário, o afeto é o toque especial, o ingrediente que pode levar um profissional à excelência na atividade que desempenha.

No entanto, a minha jornada nessa área, onde eu me sentia tão relevante para as pessoas que atendia, chegou ao fim. Novos horizontes e tempos precisaram ser explorados e descobertos na minha história.

Mas, dentre as muitas coisas que aprendi nessa área em que atuei durante tantos anos, é que, para muitas pessoas que perdem a visão, essa nova realidade é como uma tragédia, comparável a uma enchente interna. Elas se sentem como se estivessem à deriva, aguardando um resgate, um caminho para trilhar e reconstruir suas vidas.

E os profissionais que realizam o trabalho de reabilitação são como resgatantes. Suas habilidades, didáticas e metodologias são os barcos e os remos que ajudam essas pessoas a atravessar as águas turbulentas dessa nova realidade. Em alguns casos, esses profissionais são como barcos motorizados, que agilizam e facilitam ainda mais o percurso até que essas pessoas cheguem a um ponto seguro, onde possam seguir em frente com segurança e autonomia.

Para muitos, essa comparação pode parecer absurda, mas durante todo o tempo em que acompanhei pessoas que haviam ficado cegas recentemente e estavam ingressando nos programas de reabilitação, posso afirmar com convicção que essa comparação não é uma tolice. Ela traduz, de forma simbólica, a complexidade e a profundidade do processo de reconstrução que essas pessoas enfrentam.

Mas, ao ouvir os documentários e ficar claro que o Estado não cumpriu o seu papel da forma como deveria, bem como notar que, no meio das equipes de resgate, havia aqueles que estavam mais preocupados em tirar selfies e fingir que estavam ajudando, fiquei profundamente reflexivo. Parece que, de alguma forma, todas as realidades se encontram.

Pois, assim como na enchente, nos serviços de habilitação e reabilitação de pessoas cegas e com baixa visão, assim como na vida de forma geral, existem aqueles que dizem querer fazer algo por alguém, mas será que realmente querem fazer ou estão, de fato, fazendo algo significativo?

Será que, nas entidades de habilitação e reabilitação, todos os profissionais contratados para exercer esses cargos estão verdadeiramente remando na direção de um lugar onde as pessoas se sintam seguras e libertas dos barcos que as mantêm acorrentadas na eterna enchente do desconhecimento de suas próprias potencialidades?

Será que tantas selfies e fotos não servem apenas para transformar quem está ou se considera em uma “enchente” em meras manchetes de publicações?

Será que todos os locais que dizem habilitar e reabilitar pessoas cegas realmente mostram que há um recomeço, longe da “enchente-prisão” da dependência, do assistencialismo e da caridade?

Será que todas essas entidades conseguem demonstrar que, logo ali em frente, existe, sim, um mundo melhor, um mundo de autonomia, dignidade e possibilidades reais?

As perguntas aqui deixadas ficam a cargo de cada um dos meus leitores refletirem sobre as respostas.

Tenho o desejo de remar e ajudar aqueles que ainda não sabem manejar seus remos, mas minha impotência, tanto na enchente quanto em outras esferas da vida, é muitas vezes grande demais.

Às vezes, queremos remar, mas alguém atira contra o nosso barco. Tentamos nadar, mas nos cansamos, retornamos à superfície e, em muitos momentos, acabamos desistindo.

Na vida, os homens não apenas afundam barcos, mas também fazem de tudo para podar as árvores que oferecem sombra.

Francis Guimarães

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