O Grito Preso na Garganta

O grito preso na garganta.

Um mundo tomado pelo câncer da ignorância.

E para quem eu escrevo? Com quem eu gostaria de conseguir conversar através das minhas palavras escritas?

Aos ignorantes, aos intelectuais, estudiosos, aos políticos, professores, médicos, motoristas de ônibus ou de aplicativo, donos de bares e restaurantes, boêmios, empresários, prostitutas…

Com adultos, jovens, adolescentes, crianças…

Talvez, em especial com as crianças, fosse preciso conversar, para tentar construir um mundo, quem sabe, um pouco diferente. Um mundo que, de fato, conseguisse respeitar a todos, sem ferir ninguém.

Gostaria de conseguir ser ouvido e, principalmente, compreendido.

Gostaria que minhas palavras escritas pudessem servir de inspiração para um grito que, acredito, esteja preso em muitas gargantas.

Um grito que mostre que todos precisamos ser respeitados, assim como precisamos respeitar o outro.

Mas é difícil soltar esse grito. É complexo.

E, ao mesmo tempo, é angustiante.

Como gritar? Onde gritar?

Como tentar mudar minimamente isso que chamamos de sociedade?

Será que existe quimioterapia para esse mal, ou já é tarde demais, restando apenas à sociedade sofrer até o fim?

A história que hoje escrevo não é muito diferente das tantas outras que já escrevi.

Afinal, trata-se do relato de uma cena que se repete comigo e com tantas outras pessoas com algum tipo de deficiência, pessoas que resolvem sair de suas casas, andar pelas ruas, trabalhar, estudar, viver como qualquer outra pessoa.

Pessoas que não querem, de forma alguma, ser vistas como super-heróis nem como coitadas.

Querem apenas ser reconhecidas como seres humanos, com suas individualidades, potencialidades e limites.

Pessoas que querem apenas respeito.

Mas, quando temos uma deficiência, no meu caso, a cegueira, talvez o simples fato de querer estar em qualquer ambiente e conviver com outras pessoas torne-se cansativo.

E, para muitos de nós, chega um ponto em que nos sentimos exaustos e passamos a sair menos de casa, ou até mesmo deixamos de sair.

 

Esse fenômeno é o que chamamos de “fadiga de acesso”, quando encontramos tantas barreiras que nos sentimos desgastados a ponto de cogitar desistir de sair.

Mas aqui, neste texto, não falo da fadiga causada pela falta de acessibilidade arquitetônica, tecnológica ou comunicacional.

Falo do cansaço de me sentir, tantas vezes, ferido e desrespeitado.

Tenho muitos amigos cegos que são verdadeiros exemplos de resiliência.

Aqueles que conseguem driblar as dificuldades sem esse sofrimento que, por vezes, torna-se tão latente para mim.

Amigos que conseguem compreender, e até mesmo aceitar, que o desconhecimento, a ignorância e a maldade humana fazem parte do jogo da vida, e que é preciso saber jogar diante de tais questões, sem se abater, sem se ferir, sem se machucar.

Mas eu, infelizmente, não consegui alcançar esse nível de maturidade, essa inteligência emocional.

Consegui driblar tantas outras barreiras da deficiência, mas ainda existem pontos a serem tratados em um longo processo de terapia.

Talvez eu até saiba jogar, talvez seja um bom jogador.

Mas é o desrespeito que me coloca em xeque.

Essa partida definitivamente não é para amadores.

O jogo da vida exige mais do que estratégia.

Exige paciência.

Porque não é uma partida justa.

Pelo contrário, é desigual.

E, em muitos casos, já começamos perdendo desde o início do jogo.

Chega a ser impressionante.

Eu sou brasileiro e gosto do meu país.

Mas, muitas vezes, me pego pesquisando sobre outros lugares e penso que talvez eu me sentiria mais respeitado em outro país.

Que talvez a sociedade tivesse uma compreensão mais sólida sobre a deficiência.

Um lugar onde eu pudesse simplesmente estar em paz.

Pesquiso destinos e imagino morar em países onde a cultura da inclusão esteja mais consolidada.

Quem sabe, na Alemanha.

É triste. Porque parece que estou buscando uma fuga.

Fugir da ignorância humana.

Mas, às vezes, também penso que os problemas não se restringem ao Brasil.

E que, talvez, de alguma forma, eu encontraria as mesmas dores no Japão, na Alemanha ou nos Estados Unidos.

Aqui em Criciúma, SC, a vida anda testando todos os níveis da minha paciência.

Vir morar em uma cidade mais afastada da capital teve seus pontos positivos, mas tornou esse jogo mais duro, com trapaças nas jogadas para as quais eu acho que não estava preparado.

Hoje, ao entrar na agência do Banco do Brasil e tentar passar pela porta giratória, o guarda me disse:

“Espere aí, vou chamar o gerente para ver como lhe atender. Nunca recebemos uma coisa assim aqui no banco.”

Fui reduzido a menos que nada. Uma “coisa”.

O gerente então liberou para que a “coisa” passasse pela porta, e saiu puxando-me pelo braço até o balcão de atendimento.

E eu explicando para o homem, um gerente de banco, servidor público, que estudou, passou em um concurso, que aquela não era a forma correta de conduzir uma pessoa cega.

Pedi de maneira firme que parasse, que soltasse meu braço, e disse que queria ensinar a forma certa: que eu deveria pegar no braço dele e ele caminhar à frente.

Questionei como um gerente não tem o mínimo de treinamento para lidar com o público.

O homem parecia não ouvir o que eu dizia.

Só queria me explicar que eu tinha que caminhar “em cima do trilho”.

Expliquei que o nome não era “trilho”, era piso tátil.

Mas não adiantou. Parecia que o homem era surdo.

Eu já estava de péssimo humor.

Na hora de sair do banco, preferi nem esperar o auxílio.

Fui batendo minha bengala até encontrar a porta e poder sair daquele banco, onde invisto meu dinheiro, para ser tratado como “coisa”.

E fui seguindo o trilho, ou melhor, o piso tátil, que terminou em uma parede, sem me guiar a lugar algum.

Eu já estava bastante chateado por causa da noite anterior.

O dia anterior havia terminado mal, e este já começava da pior forma possível.

Na noite anterior, havia ido a um local bastante agradável, onde sempre fui tratado com muito respeito e, até então, nunca havia passado por nenhuma situação desagradável.

Mas pessoas desprovidas de bom senso estão em todos os espaços.

E, nessa noite, foi isso que ocorreu.

Uma pessoa babaca, tola, uma figura extremamente repugnante, resolveu que iria fazer de mim o bobo da corte.

Comentava na mesa ao lado que duvidava que eu era cego, que isso era impossível:

“Como um cego vai ao banheiro sozinho, mexe no celular e bebe cerveja?”

Na primeira vez, eu ouvi e deixei para lá.

Na segunda, ouvi, me senti desconfortável, mas também deixei passar.

Na terceira, respondi. Disse que eu era cego sim, mas que isso não importava muito para ele. Que eu tinha as minhas formas, as minhas maneiras de fazer as coisas.

Mas ele continuava com piadas, porque, para ele, eu realmente era o bobo da corte.

“Onde já se viu, com que direito um ser cego sai de casa e caminha até o bar?”

Claro, para ele, lugar de cego é em casa, sentado no sofá, ouvindo radinho de pilha.

Para ele, cego não é gente, não tem sentimento, não sente frio, fome, dor.

Também não tem raciocínio, não sabe o que é direita ou esquerda.

Logo alguém vai dizer:

“Ah, mas o sujeito estava embriagado, faz parte do jogo!”

Eu não concordo com essa teoria.

A bebida apenas potencializa o mal ou o bem que existe dentro de nós.

A pessoa em questão não aceitava o fato de eu estar no bar. Começou a me testar.

Fez uma pergunta, e eu fui responder, direcionado a ele.

Apesar de cego, eu me direciono para as pessoas quando falo com elas.

Ele deu a volta na mesa e parou do outro lado. Então disse:

“Eu estou aqui, não estou aí.”

Não apenas me reduziu a bobo da corte, mas tentou me ridicularizar ao máximo.

Como quem vai ao zoológico e cutuca os gorilas para ver a reação da outra espécie.

Porque, sim, para aquele sujeito, eu não sou da espécie dele.

Sou um ceguinho que ousou sair de casa.

Sou um coitado, que merece a piedade ou, no máximo, a admiração da espécie dele.

Mas, acima de tudo, sou para ele uma figura folclórica, que serve de piada e deboche.

Para ele, sou menos que um rato de laboratório.

Alguém sem individualidade.

Alguém que merece ser feito de trouxa, o palhaço do seu circo particular.

E ele não precisa me respeitar, porque, para ele, cego não merece respeito.

Mais lamentável ainda foi, depois de tudo, ele dizer que estava “só brincando”. Que estava admirado. Que, se ele não enxergasse, jamais conseguiria fazer o que eu faço.

Que tudo aquilo era fruto da sua “admiração”.

Ainda quis me abraçar e apertar minha mão.

Com todo respeito, mas vá apertar a mão do demônio.

Regressei para casa triste, chateado com a situação.

Compreendendo que situações como essa não deveriam me afetar, mas também sabendo que não tenho total domínio sobre o que me afeta ou não.

De tudo isso, o que mais me entristece é perceber que ainda evoluímos tão pouco nessas questões, que na verdade dizem respeito a algo básico, respeitar o outro.

Nosso país conta com influenciadores digitais que falam sobre cegueira com muita propriedade, de forma bela, completa, abrindo suas vidas para conscientizar a sociedade sobre um tema tão importante.

E, mesmo assim, seguimos encontrando em nosso caminho pessoas como aquele sujeito, uma verdadeira aberração.

Por que será que a mídia não faz um trabalho sério para mudar essa realidade?

Por que grandes veículos de comunicação não criam programas semanais sobre a realidade das pessoas com deficiência?

Por que o reality show da Globo não chama uma pessoa cega para participar?

Por que o Fantástico não convida influenciadores digitais cegos como Darley Oliveira, Geisa Farini ou Fernando Campos?

Por que essas pessoas, que fazem um trabalho tão relevante, não estão em rede nacional?

Por que não se divulga amplamente que Lucas Radaelli, um cego brasileiro, é engenheiro de software na Google e uma referência mundial?

Por que não é falado, lembrado e ensinado nas escolas que o doutor Tadeo Marques da Fonseca é um juiz cego do TRT da nona região?

E os nossos campeões do esporte paralímpico?

Por que Ricardinho Alves, o melhor jogador de futebol de cegos do mundo, aparece tão pouco na Globo, no SBT, na Band ou na Record?

Se divulgássemos mais a nossa realidade, talvez encontrássemos menos pessoas tão escrotas quanto aquele cidadão do bar.

Mas acho importante dizer que também entendo que, em muitos casos, a culpa recai sobre algumas entidades de pessoas cegas, que fazem um trabalho péssimo.

Como aqui em Criciúma, onde colocam uma pessoa cega para pedir de porta em porta, mas não vão às escolas, comércios ou órgãos públicos para falar sobre as capacidades das pessoas cegas e com baixa visão.

É uma cidade que não oferece aulas de informática, Braille e nem mesmo orientação e mobilidade para cegos.

Não existem setores que discutam o capacitismo.

A culpa não é só da instituição.

É de toda uma construção social.

Da inclusão que não existe.

Da forma equivocada com que o tema da deficiência é abordado em sala de aula.

Das dinâmicas sensoriais mal elaboradas, que mais aterrorizam do que ensinam, e acabam por reforçar uma percepção ainda pior sobre nós.

Dinâmicas em que se vendam pessoas sem deficiência, sem explicar que isso não é o mesmo que ser cego, sem sequer mencionar a existência da neuroplasticidade cerebral.

E se nos aprofundarmos nesse tema, veremos que as falhas muitas vezes se iniciam dentro das próprias instituições de cegos.

Esses dias fui a uma reunião em que uma profissional vidente, que atuava como professora em uma associação de cegos, disse entre risadas que caminhava “pé por pé” para tentar sacanear o presidente da instituição, que é cego.

Isso comprova que os palermas estão em todos os espaços.

Mas a culpa também é de um país que oferece uma habilitação e reabilitação extremamente precária para pessoas cegas, especialmente nas cidades do interior.

E o resultado disso tudo?

Mesmo quando temos dinheiro, trabalho, autonomia e mobilidade, muitos de nós escolhemos não sair de casa.

Vamos nos isolando. Trabalhamos e voltamos direto para casa.

Para aqueles que, assim como eu, trabalham em casa, o isolamento social pode ser ainda maior.

Queremos fugir de uma realidade tão cruel.

E muitas vezes, isso resulta em doenças psicológicas.

Sempre gostei de sair de casa. Sempre adorei estar em um restaurante ou em uma mesa de bar.

No passado, já pensei que, se o céu existisse, seria uma mesa de bar cheia de amigos.

Hoje, acho que o bar pode ser o céu em algumas situações e o inferno em outras.

Ontem, arrependi-me amargamente de ter saído do conforto e da proteção do meu lar.

É profundamente lamentável ter a clareza de que pessoas como aquele asno da mesa do bar estão por toda parte.

São gerentes de banco, motoristas, advogados, médicos, professores e até funcionários de associações de cegos.

E muitos desses têm filhos, os jumentinhos, que vão crescendo e se tornando grandes jumentos, iguais aos pais.

Crianças que, muitas vezes, também são cruéis.

Fazem bullying, são preconceituosas, racistas, capacitistas, mas dizem que “é só brincadeira”.

Outro dia, passando em frente a uma escola, ouvi uma criança cantar:

“Joga pedra no cego pra ele pular. Joga pedra no cego pra ele pular.”

Com certeza, ela não tirou isso da própria cabeça.

Não estou dizendo que a sociedade se resume a uma legião de idiotas.

Tem muita gente boa por aí.

Mas é difícil conviver com a fatia ruim, que não é tão pequena assim.

Se eu viver mais 50 anos, sei que não verei grandes mudanças.

Mas tenho esperança de que, quem sabe, daqui a 500 anos, isso seja um pouco diferente.

Houve um tempo em que era proibido uma pessoa preta sentar-se à mesa com uma pessoa branca.

Graças a muita luta, isso mudou.

Talvez, um dia, pessoas cegas possam entrar num bar, ir a um parque, embarcar em um avião, sem virar o centro das atenções.

Quem sabe, um dia, eu possa sentar numa mesa de bar sem ter que provar nada, sem ser questionado sobre minha história, sem me tornar o bobo da corte.

Quem sabe, um dia, eu possa ser visto apenas como um ser humano.

Nem como super-herói, nem como coitado.

Apenas um ser humano.

Eu poderia, como de praxe, encerrar este texto com meu nome e minha assinatura.

Mas hoje, encerro e assino como Coisa.

Se por muitas pessoas sou tratado, chamado e visto como coisa, então eu escancaro isso e devolvo à sociedade esse espelho cruel.

 

Por Coisa

 

 

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *