Já parou pra pensar se aquele restaurante “acessível” que você adora é mesmo acessível… pra todo mundo?
Dica: na próxima vez, peça ao garçom uma dose de realidade sem gelo. Vai bem com qualquer prato e abre o apetite pra reflexão.
Desde que me conheço por gente, percebo o quanto a sociedade, em linhas gerais, precisa evoluir em tantos aspectos. É claro que temos passado por diversas transformações que nos impulsionam nessa evolução.
Se pararmos para refletir, em um curto espaço de tempo, pegando como exemplo os últimos 30 anos, muitas coisas se transformaram. Propagandas que estimulavam o uso de cigarros não existem mais. Estudos comprovam que os jovens de hoje consomem menos tabaco do que os de antigamente. O consumo de cigarro foi proibido em diversos locais. Imagine: fumava-se até dentro de aviões.
As propagandas de balas, pirulitos e chicletes também desapareceram, diminuindo o incentivo ao consumo de produtos ricos em açúcar por crianças. Programas que alimentavam o preconceito racial e a homofobia foram saindo do ar aos poucos. Quem aí com mais de 30 anos se lembra do programa “Casseta e Planeta”, exibido à noite na Rede Globo? Um verdadeiro show de piadas que debochavam das diversidades humanas.
Já sei: com certeza alguém lendo esse texto vai gritar — “ah, o mundo era muito mais legal”, ou “agora está tudo chato, o politicamente correto é um saco”.
Frases como essas são comuns. Dizem que o politicamente correto limita a liberdade de expressão e do humor. Eu, enquanto pessoa cega, penso que não se trata de politicamente correto ou não. Muitas vezes, sim, esse conceito pode soar forçado. Mas precisamos falar sobre mudança de comportamento e cultura social.
O politicamente correto se torna um problema, na minha visão, quando as pessoas deixam de interagir por medo de errar, por exemplo, por não saberem uma nomenclatura correta. Ou quando associam determinadas práticas ao politicamente correto e acham que devem aplicá-las em todas as situações. Talvez esse radicalismo roube a naturalidade das relações.
Gosto bastante de refletir sobre essas mudanças sociais, principalmente para pensar na realidade de nós, pessoas com deficiência. E fica muito claro pra mim que nossa evolução é lenta. Passos de tartaruga. Ainda precisamos caminhar muito para transformar a cultura em relação a nós.
Nos últimos tempos, tenho me debruçado no estudo sobre acessibilidade, sempre guiado pelo conceito de desenho universal, que deveria ser aplicado não apenas no digital, mas também nas atitudes e nos espaços físicos.
Às vezes achamos que estamos olhando para o todo, mas estamos apenas focando na nossa realidade. O desafio é romper as bolhas e enxergar as outras vivências que também merecem atenção.
Semana passada, embora tenha sido mais curta por causa da Semana Santa, foi intensa. Trabalhei a semana inteira falando sobre acessibilidade, pensando no desenho universal. Em um dos dias, fiz uma fala para um grupo de pessoas com o objetivo de romper com o desconhecimento sobre deficiência e aproximá-las da acessibilidade e da inclusão.
Expliquei conceitos, disse que todos somos seres humanos com especificidades diferentes. Em certo momento, falei da minha filha, ainda tão pequena, com apenas quatro anos, mas que entende a deficiência como algo natural. Afinal, convive comigo, com a mãe dela, com amigos cegos. Para ela, é natural ver a gente cozinhando, andando pela rua, trabalhando.
Falei da forma leve como a criança lida com as diferenças. E então, no fim da semana, minha mãe veio nos visitar para o feriado de Páscoa. Decidimos sair para jantar e tomar uma cerveja.
Eu, que nos últimos tempos venho sofrendo com a fadiga de acesso por morar no interior, resolvi não arriscar um local novo, para evitar os dissabores. Escolhi um restaurante conhecido, mega acessível, onde sempre fui bem tratado. Nunca fui barrado com meu cão-guia. Os garçons, o gerente, a moça do caixa, todos me atendem com o respeito que qualquer cliente merece. A máquina de cartão tem teclado físico, posso digitar a senha com autonomia. Até tenho uma mesa preferida: à esquerda do corredor que leva ao banheiro, o que facilita meu deslocamento sozinho.
Durante o jantar, minha filha perguntou para a avó:
— Vovó, por que aquele homem está numa cadeira com rodas? É um carrinho?
Minha mãe explicou que ele era uma pessoa com deficiência física, que usava a cadeira para se locomover. Mas minha filha continuou olhando, curiosa. Então minha mãe complementou:
— Aninha, não se deve ficar olhando assim para as pessoas. Isso é normal. Ele é uma pessoa com deficiência, como o seu pai, só que com uma deficiência diferente. Às vezes as pessoas também ficam olhando para o papai, e esses olhares podem incomodar.
Pronto. Aninha entendeu, parou de olhar.
Mas aquilo me fez pensar. Assim como o queijo da pizza derretia no prato, derretia também minha convicção de que minha filha agia com naturalidade com pessoas com deficiência. Na verdade, ela age com naturalidade com pessoas cegas, as que fazem parte da convivência dela.
Ao mesmo tempo, me alegrou ver a forma como minha mãe explicou a situação. Nem todo adulto tem essa sensibilidade de apresentar a deficiência como algo natural para uma criança. Claro que eu explicaria, caso minha mãe não o fizesse.
Seguimos com a noite, e eu, feliz por estar em um lugar acessível, aconchegante. Atendimento excelente, respeito ao meu cão-guia, cuidado em avisar quando o copo é servido, apoio para ir ao buffet, deslocamento tranquilo até o banheiro. Lugar nota mil.
Até que, já no fim do jantar, ouvi alguém dizer:
— Ah, que saco! Não vai dar! Não vai passar!
Minha mãe comentou com alguém próximo:
— É complicado quando falta acessibilidade.
Depois me contou a cena: o homem cadeirante queria ir ao banheiro, mas a cadeira dele não passava pela porta. Ele foi embora.
Aquilo me atingiu como uma pancada. O garçom chamado Semancol, trazendo uma dose de amarga realidade sem gelo. Logo fui ao banheiro, o qual eu já havia ido tantas vezes em outras ocasiões, mas só naquele dia percebi que, de fato, o espaço era um labirinto. Porta estreita, corredor que vira à esquerda, depois à direita, depois outra porta estreita. Um banheiro minúsculo.
Deslocamento e acesso até o banheiro que nunca foi um problema pra mim. Mas ali entendi claramente que não é acessível para todos.
Fui pagar a conta e reparei que o balcão é bem alto. Sempre pago ali, até brinco batucando um sambinha no baleiro que fica em cima do balcão. Mas pensei: uma pessoa com nanismo ou que usa cadeira de rodas teria dificuldade para alcançar.
Na saída, lembrei dos dois degraus da porta principal. Eu subo e desço com naturalidade. Mas outras pessoas não. Elas precisam entrar por uma porta lateral, e não entram pela porta da frente.
Tudo isso me fez mudar minha avaliação no Google. Um restaurante que eu julgava acessível, na verdade, não é.
Eu não percebia porque a barreira não me atinge diretamente. Mas ela atinge outras pessoas com deficiência. E fere completamente o conceito de desenho universal.
Essa experiência me fez refletir sobre o quanto ainda é difícil pensarmos em acessibilidade para todos. Mesmo eu, pessoa cega, que trabalha com acessibilidade, frequento o lugar há quase um ano e nunca tinha percebido esses pontos.
O que esperar do restante da sociedade?
Precisamos mudar. Construir novos hábitos. Não aceitar espaços, sistemas, ambientes que não sejam acessíveis para todos.
A sociedade já mudou em alguns aspectos. Hoje é menos racista, menos homofóbica, consome menos cigarro, tem menos incentivo ao açúcar, e o “Casseta e Planeta” não está mais no ar.
Mas e nós, pessoas com deficiência? Quando será nossa grande transformação cultural?
Alguns acham que falta de acessibilidade arquitetônica não tem relação com cultura. Mas tem tudo a ver. As pessoas que estavam ali fingiram não ver. O dono do restaurante não pensou em clientes com deficiência. Isso é cultura. Isso é ausência de cultura da acessibilidade.
Se no passado alguém dissesse que seria proibido fumar em restaurantes, ônibus e prédios, muitos achariam um absurdo. Se falássemos que piadas homofóbicas deixariam de ser aceitas, também pareceria estranho. Mas essas mudanças aconteceram.
Então, o que falta para que a mudança tão urgente em relação a nós aconteça?
Finalizo reconhecendo e agradecendo a luta de tantas pessoas incansáveis, que batalham para garantir e manter nossos direitos. Mas a realidade é que ainda caminhamos a passos lentos.
Francis Guimarães

Deixe um comentário