A vida e seus pactos de silêncio

A vida e seus pactos de silêncio

Caros leitores, já pararam para pensar quantos pactos de silêncio vocês firmaram ao longo da vida?

Pode parecer uma pergunta estranha, talvez sem sentido para alguns, mas garanto que não é.

Desde pequenos, somos condicionados a nos calarmos diante de diversas situações. Seja por educação, por constrangimento, por receio de magoar alguém ou simplesmente por acreditar que dizer o que pensamos nem sempre é adequado ou aceitável.

Muitos de nós, talvez a maioria, aprendemos que não devemos reclamar da comida no restaurante, mesmo quando ela está ruim. Aprendemos a pagar os 10% do garçom, mesmo quando não queremos ou não temos condição de pagar, simplesmente para manter a etiqueta.

E assim seguimos silenciando. Presenciamos injustiças e crueldades e nos mantemos fiéis a esses pactos de silêncio.

Quando os sentimentos de carinho e amor entram em jogo, esses pactos tornam-se ainda mais rigorosos. Não podemos dizer a verdade àqueles que amamos, pois falar para minha mãe que sua comida está ruim seria uma catástrofe; magoaria seus sentimentos. Apontar os erros de meu pai seria visto como desrespeito, um desacato aos muitos pactos de silêncio que a sociedade hipócrita nos obriga a assinar.

Como diria Raul Seixas: “Todo mundo tem que reclamar”.

Eu entendo que todos nós temos muito do que reclamar e que, principalmente, nós, pessoas cegas, devemos romper alguns desses pactos de silêncio. O mundo só será melhor quando nossas verdades forem ouvidas.

A acessibilidade nas cidades brasileiras, em sua grande maioria, é inexistente. No entanto, muitos de nós não falamos nada para não nos expormos diante de políticos que podem nos prejudicar ou mesmo retaliar instituições. Nos calamos diante dos crimes de discriminação e do capacitismo que ocorrem contra estudantes com deficiência dentro das escolas “inclusivas”. No mundo do trabalho, também não é diferente: ficamos em silêncio e fingimos não ver que grande parte das pessoas com deficiência não está verdadeiramente incluída.

Até mesmo nas entidades que nos representam, onde nossas vozes deveriam ser sempre ouvidas, respeitadas e valorizadas, o silêncio se impõe. Talvez seja ainda pior, pois aprendemos que devemos nos calar em gratidão pelo que fazem por nós, mesmo quando esse “fazer” não passa de mero assistencialismo.

Assim, esses pactos de silêncio tornam-se comuns, naturais. Passamos a aceitar tudo calados, pois reclamar é visto como algo feio, chato, deselegante. Alguém sempre vai se incomodar com quem reclama.

No caso das pessoas com deficiência, muitos de nós nos acostumamos a viver com aquilo que nos é oferecido, com a clareza de que, além de o mundo não ser pensado para nós, uma parcela considerável da sociedade também não quer nos ouvir.

Nos acostumamos a todas as barreiras e à falta de acesso. Seja a barreira arquitetônica, como o velho orelhão na esquina no qual batemos a cabeça, mas não reclamamos porque “ele está ali para ajudar quem precisa”. Seja a barreira atitudinal, como a tia Vilma, que em todo churrasco de família repete as mesmas piadas sobre cegos, e não falamos nada porque “todos adoram a tia Vilma” e “ela já está velha para aprender”.

Ou ainda a barreira digital, como o aplicativo do banco Vendaval, totalmente inacessível. Mas não posso criticá-lo, pois todos os meus amigos e familiares enxergam e adoram sua interface.

Não precisamos ir longe. Dentro de nossas próprias casas, com nossas próprias famílias, esses pactos de silêncio são firmados. Quantas vezes bati a canela em uma cadeira fora do lugar, mas não reclamei para não parecer chato ou para não magoar quem a deixou ali?

A tecnologia evoluiu muito, mas em alguns pontos continuamos estagnados. Lembro-me de, quando criança, ver os excludentes álbuns de fotografia serem folheados em família nas tardes de domingo, momentos que antecediam a tortura do “Domingão do Faustão” com suas “Vídeos Cassetadas”. Todos admiravam as lembranças das fotos e, às vezes, alguém se lembrava do cego na sala e descrevia uma imagem. Mas, quase sempre, soltavam o clássico bordão: “Pena que você não pode ver esta foto, fulano”.

Hoje, os álbuns de fotografia foram substituídos pelo Facebook e Instagram, e até a Rede Globo já exibe filmes com audiodescrição. Mas nossos pactos de silêncio continuam. Se as fotos nas redes sociais não têm descrição de imagem, voltamos àquela sala de domingo, onde todos podem ver suas fotos e lembrar suas histórias, menos nós, cegos. E, se reclamarmos, cometemos um crime contra esse documento social, esse pacto de silêncio, ferindo aqueles que “esqueceram” ou não quiseram descrever a imagem para nós.

Quanto tempo ainda levaremos para evoluir e compreender o outro? Por que a tecnologia avança mais rápido do que nossos velhos costumes?

E você, terá coragem de romper seus pactos de silêncio?

Francis Guimarães

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