Em uma manhã de inverno de 2013, eu estava deitado no meu quarto, navegando pela internet com meu smartphone. Foi então que me deparei com uma matéria sobre um aplicativo que prometia descrever imagens para pessoas cegas. O nome do aplicativo era TapTapSee.
Ainda deitado, tomado pela curiosidade e pela esperança, baixei o aplicativo. Tirei uma foto direcionada para a porta do meu quarto e, logo em seguida, ouvi o leitor de telas dizer: “Porta branca de madeira com alguns adesivos coloridos”. Para mim, aquele foi um momento de intensa alegria. Não apenas pelo que o aplicativo era capaz de fazer, mas também pela visão de novos tempos que pareciam se desenhar diante de mim.
O tempo passou, e diversos outros recursos surgiram, muitos deles com funcionalidades ainda mais avançadas e impactantes do que o TapTapSee. Hoje, desfrutamos de ferramentas incríveis, como o Be My Eyes, que combina inteligência artificial com a conexão entre pessoas cegas e voluntários. Temos também o Seeing AI, com suas múltiplas aplicações, além dos avanços contínuos nos leitores de tela, que proporcionam um acesso cada vez mais amplo ao mundo digital.
Mas naquela manhã de inverno de 2013, fiquei pensando nas inúmeras possibilidades que o avanço tecnológico poderia oferecer para todos nós, seres humanos, e especialmente para nós, pessoas com deficiência. No meu caso, como pessoa cega.
É incontestável que a falta de visão traz uma série de limitações no acesso às informações. No entanto, vejo a tecnologia como uma ferramenta capaz de minimizar essas limitações de maneira significativa, quase eliminando-as por completo. Esses avanços não são apenas soluções técnicas; são portas abertas para um mundo mais acessível e inclusivo.
Semana passada, tive acesso a um recurso que me chamou muita atenção e me fez refletir sobre o quão incrível será o futuro com a utilização da inteligência artificial.
Experimentei o recurso de visão por inteligência artificial do ChatGPT, disponível para assinantes, e também explorei a visão artificial do Gemini, da Google, acessível gratuitamente. Essa tecnologia representa um marco, trazendo novas formas de interagirmos com o ambiente e com os objetos ao nosso redor.
Embora essas ferramentas não tenham sido desenvolvidas especificamente para pessoas cegas ou com baixa visão, elas oferecem suporte valioso em tarefas cotidianas, ampliando nossa autonomia e nossas possibilidades de acesso.
Neste momento em que a visão artificial começa a nascer, vemos a acessibilidade, a inclusão e a inovação caminhando juntas. Um amplo leque de oportunidades está sendo construído, desenhando, aos poucos, um futuro muito mais acessível.
Minhas expectativas em relação a essa tecnologia são tão grandes que gravei uma série de vídeos demonstrando a funcionalidade recém-lançada no ChatGPT. É importante destacar que essas ferramentas não têm como objetivo substituir técnicas tradicionais, como a bengala, o sistema Braille ou os leitores de tela. Pelo contrário, elas são um complemento poderoso, permitindo acesso a informações que antes considerávamos inalcançáveis.
Por exemplo, por mais de 30 anos, configurar a BIOS de um computador era uma tarefa impossível para uma pessoa cega, devido à ausência de suporte para leitores de tela. Dependíamos sempre da ajuda de alguém que enxergasse. Agora, com a visão artificial, esse cenário está mudando. Essa tecnologia descreve a tela e a posição do cursor, permitindo que pessoas cegas configurem a BIOS de forma independente.
Pensem no impacto disso: quantas telas inacessíveis agora podem ser compreendidas! É fundamental, no entanto, ressaltar que esse recurso não elimina a necessidade de desenvolver sistemas acessíveis seguindo boas práticas. Ele preenche uma lacuna, oferecendo acesso a informações que antes estavam fora do nosso alcance.
Mas essa inovação vai além das questões técnicas. Ela transforma a forma como interagimos com o mundo ao nosso redor. Imagine pessoas cegas que vivem sozinhas ou em famílias onde todos têm deficiência visual. O quão revolucionário é poder identificar as cores das roupas, os padrões dos tecidos, detectar mofo no teto, perceber bolor em alimentos ou ler painéis de eletrodomésticos? E isso sem mencionar as inúmeras outras situações do cotidiano que agora podem ser resolvidas com autonomia.
A tecnologia é, acima de tudo, uma ferramenta para melhorar nossas vidas. E, para nós, pessoas cegas, cada avanço como este é mais do que uma inovação: é um passo significativo rumo a uma maior qualidade de vida.
Se pensarmos na área da saúde, a importância da visão artificial se torna ainda mais evidente. Imagine uma pessoa cega com um machucado que deseja saber a coloração da ferida. Está avermelhada? Há manchas ao redor? São informações fundamentais.
Trago um exemplo pessoal. Tenho uma patologia intestinal que, em algumas situações, causa perda de sangue nas fezes. Diversas vezes, precisei tirar fotos e enviá-las a familiares que, a contragosto, descreviam para mim o que viam. Com a visão artificial mais aprimorada, acredito que poderei simplesmente apontar a câmera do meu telefone para o vaso sanitário e receber uma descrição precisa da coloração e de possíveis indícios de sangue.
Para pessoas diabéticas que utilizam insulina, a visão artificial também será revolucionária. Poder ler o display do aparelho de glicemia ou verificar a quantidade exata de insulina na seringa será um grande avanço. Conheço muitas pessoas cegas que, por falta de acesso a essas informações, aplicam insulina de forma desregulada. Meu pai, por exemplo, passou mais de 20 anos confiando apenas na percepção tátil para medir a insulina, sem poder verificar com precisão se havia bolhas de ar ou a quantidade correta de medicamento na seringa.
Esses exemplos sintetizam o potencial transformador da tecnologia e o impacto que a visão artificial já tem e terá cada vez mais, à medida que evolui. Sou convicto de que a inteligência artificial mudará a vida daqueles que souberem compreender e aproveitar suas funcionalidades.
Ainda há muito a ser desenvolvido, mas os primeiros passos para esse novo tempo já foram dados. A visão artificial não faz com que nós, cegos, enxerguemos, mas nos permite compreender e interagir com o mundo ao nosso redor de maneiras antes inimagináveis.
Francis Guimarães

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